PT e PSDB: pó do mesmo giz

Um estado democrático pode ter dezenas de partidos políticos, mas a alternância é quase sempre bipartidária e segue os princípios básicos da dialética. No Brasil, segue as rixas do alambrado. 

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2015 | 02h00

No Reino Unido, o Partido Conservador e Trabalhista se revezam há décadas no Poder. Nos Estados Unidos, o racha está nas entranhas da sociedade: ou a família é republicana, ou é democrática, ou quer pagar menos impostos e acusa de “socializante” a iniciativa de tornar serviços essenciais públicos, ou acredita em programas sociais e regulação da economia.

Italianos costumavam calcular seu racha com matemática pura: metade do país amava o papa, metade queria enforcá-lo. A democracia cristã se contrapunha ao PCI (Partido Comunista Italiano). O cenário lembra muito o brasileiro atual que, com o avanço da bancada do amém, nos divide entre defensores de um estado laico e crentes.

Lá como aqui, são mais de 30 partidos divididos em democratas-cristãos, comunistas, marxismo-leninismo, ecologistas, liberalismo, neofascismo, trotskismo, sem contar a Usei (União Sulamericana de Emigrantes Italianos), que representa a italianada de dupla cidadania que vive no exterior. Quem manda lá é o PD, herdeiro dos Comunistas, contra Força Itália, sob influência de um morto-vivo, Silvio Berlusconi. Mas precisam da aliança com o Cinco Estrelas para governar, partido liderado pelo ex-palhaço Beppe Grillo. Como aqui precisam do PMDB e de outros palhaços.

PT votou contra Tancredo em 1985 e desligou três deputados que votaram nele, José Eudes, Bete Mendes e Airton Soares. Votou contra a Constituição em 1988 e o Plano Real, grande marca do PSDB. Arrependeu-se, aprendeu a fazer alianças e governa o País. Na sala, tem um elefante imóvel, o PMDB, pesado fardo da governabilidade, que por vezes se irrita e quebra a mobília, partido que anunciou que sairá por conta própria nas próximas eleições. 

A irritação do elefante rendeu frutos: o PT votou com o PSDB na reforma política (voto distrital misto), contra seu aliado PMDB, e pode apoiar projeto do senador José Serra (PSDB-SP), que aumenta o prazo de internação do Estatuto da Criança e Adolescente. 

Muitos defendem que PT e PSDB deveriam se unir e realizar uma colonoscopia para tirar pólipos da política brasileira. Mas esta relação tem altos e baixos, como toda paixão mal resolvida. Ambos nasceram das lousas da USP. Já dividiram técnicos: Francisco Weffort, petista histórico, trabalhou em administrações tucanas, como o economista João Sayad em administrações petistas.

Entre o partido do operário e do professor, que combateram juntos a ditadura, já rolou churrasco com champanhe, como listou Rodrigo Silva, do site Spotniks:

1) PT e PSDB ajudaram a construir a nova esquerda brasileira sob influência de Florestan Fernandes. Serra e Sérgio Motta foram da AP, como Plínio de Arruda Sampaio, Cristovam Buarque e Aloizio Mercadante. José Aníbal, amigo de adolescência de Dilma, foi um dos fundadores do PT, antes de ser presidente do PSDB.

2) Lula e FHC quase criaram um partido no final da década de 1970. Conta Weffort: “Apesar das muitas afinidades, prevaleceu a divergência. Daquele grupo, uns saíram para criar o PT e outros, anos depois, o PSDB”. Para Eduardo Suplicy, que os reuniu, um tinha dificuldade de aceitar a liderança do outro.

3) Lula e Suplicy dividiram a casa da praia de FHC em 1976, em Ubatuba.

4) Lula distribuiu santinho em portas de fábrica com FHC, apoiando sua candidatura ao Senado em 1978. 

5) O PSDB com Brizola apoiou Lula contra Collor no segundo turno das eleições para a presidência de 1989. O tucano Pimenta da Veiga anunciou: “Tenho também a alegria de saber que, pela primeira vez, aqui se reúnem representantes de todas as forças progressistas do País. Eu estou certo que isso terá desdobramentos. Acho que deve ser assim, porque o Brasil deseja mudanças em profundidade, e só essas forças progressistas podem fazer essas mudanças”.

6) Em 1993, antes do plebiscito que decidiria sobre o sistema de governo do País, Lula e FHC planejaram que o operário seria presidente e o sociólogo primeiro-ministro. 

7) FHC ajudou a tranquilizar o mercado na eleição de Lula em 2002. Enviou seu ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, à Casa Branca, para avalizar o futuro governo petista, instruiu seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, a construir uma agenda comum junto ao homem forte de Lula, Antonio Palocci, com o Tesouro dos Estados Unidos, o FMI e Wall Street. 

FHC relatou: “Lula conversou comigo no dia da posse. E foi bonita aquela posse… Na hora de ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o elevador. E aí ele grudou o rosto em mim, chorando. E disse: ‘Você deixa aqui um amigo’. Foi sincero, não é?”.

8) Um tucano, Henrique Meirelles, deputado federal do PSDB, foi o homem forte da economia do governo Lula. FHC ironizou: “Eu também comemoro a melhoria na distribuição de renda. A política dele é a minha”.

9) Com Márcio Thomaz Bastos, em encontros secretos em que estava Palocci, FHC jogou areia na possibilidade de impeachment de Lula em 2005, no auge do escândalo do Mensalão. 

10) PT e PSDB se coligaram em 999 disputas de prefeituras nas últimas eleições municipais. Em 149 casos, chapas que contaram com o PT foram encabeçadas por candidatos a prefeito pelo PSDB.

Na Itália, o PD se aliou a Berlusconi para a voz no Parlamento Europeu com uma grande coalizão aumentar e falar grosso com a Alemanha. FHC tirou do forno a panela do impeachment de Dilma e enfraqueceu o movimento.

Nem tudo são flores. A parceria público-privada para trocar 620 mil pontos de luz de São Paulo por luminárias de LED, que pode economizar até 50% de energia e aumenta a vida útil das lâmpadas em dez anos, é dificultada pela bancada do PSDB da Câmara dos Vereadores. Nela, Andrea Matarazzo, possível candidato à Prefeitura. Mas os dois partidos são pó do mesmo giz.

 

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