Psych celebra os 20 anos de Twin Peaks

Uma defunta envolta em plástico na praia. Estaria Laura Palmer de volta?

Etienne Jacintho,

29 de novembro de 2010 | 07h00

Tensão. Seriado 'Psych' reproduz famosa cena de 'Twin Peaks', de David Lynch


"Diane, 11h30, 24 de fevereiro. Entrando na cidade de Twin Peaks." A frase acima marca a primeira participação de Kyle MacLachlan na pele do agente Dale Cooper, na série Twin Peaks, a obra de David Lynch que marcou os anos 1990. O clássico faz 20 anos e ganha uma homenagem em Psych, no episódio Dual Spires, que vai ao ar em 1.º de dezembro nos EUA. Por aqui, a 5.ª temporada da série deve chegar apenas em fevereiro, via Universal Channel.

 

Para quem não se lembra, Twin Peaks começa com o dono da serralheria, Pete (Jack Nance), encontrando um corpo na praia. Assustado, ele telefona para o xerife Harry S. Truman (Michael Ontkean): "Ela está morta. Enrolada em plástico." A partir daí tem início um dos maiores mistérios da TV no mundo inteiro. Afinal, quem matou Laura Palmer?

 

"Lembro-me daquele dia (em que gravou a cena) como se fosse ontem", fala Sheryl Lee, a atriz que interpretou Laura Palmer, em entrevista por telefone ao Estado e a veículos da imprensa americana. "Há coisas da filmagem da série que não me recordo, mas aquela cena, em que fiquei no frio, deitada na praia e embalada em plástico me lembro bem."

 

O episódio de Psych reproduz a mesma cena, mas, desta vez, Sheryl não é a morta. Ela vê o corpo ao lado do ator Dana Ashbrook, que, em Twin Peaks, vivia Bobby, o namorado oficial de Laura. "Foi uma experiência surreal", diz Sheryl. "Me tocou mais do que eu imaginava."

 

Para o ator James Roday, protagonista de Psych, a parte inesquecível de Dual Spires também é a cena da praia. "É o momento em que a personagem de Sheryl abre o plástico e revela a garota morta, exatamente na mesma posição de Laura Palmer", conta o ator, também por telefone.

 

Roday é fã de Twin Peaks. Tanto que foi dele a ideia da homenagem. Além da concepção do episódio, Roday também assina o roteiro. "Foi uma loucura fazer um episódio sobre minha série favorita", comenta. Ele conta que tudo surgiu a partir de Dana Ashbrook. "Ele é meu amigo há anos e pensamos em espalhar o amor e conquistar outros atores para o capítulo", lembra. "Não pensava em fazer um tributo sem Sheryl (Lee) e Sherilyn (Fenn). Elas eram as duas caras icônicas e não teria sentido continuar o projeto sem elas."

 

Sheryl e Sherilyn (a sexy Audrey Horne) toparam. A elas e a Ashbrook se juntaram mais quatro atores: Ray Wise (o possuído Leland Palmer), Catherine Coulson (a misteriosa Mulher do Tronco), Lenny Van Dohlen (o perturbado Harold Smith) e Robyn Lively (Lana Milford). Ray Wise já havia participado de Psych na temporada passada, na pele de um padre. "Foi só pensar como colocar o personagem dele no tributo", conta Roday.

 

Van Dohlen se tornou o xerife da cidade neste tributo. Robyn representa a segunda temporada. "E ter Catherine Coulson foi ‘uau’... O planeta conspirou a nosso favor e tudo se encaixou!", celebra Roday.

Carta de amor. Sheryl só tem elogios a Roday. Ela conta que vários convites para revisitar Twin Peaks foram feitos a ela nestes 20 anos, mas nenhum tinha o tom respeitoso de Psych. "Aquilo não parecia certo para mim", afirma a atriz. Para Roday, o mais difícil foi não atravessar a tênue linha entre ser Psych e não zombar de Twin Peaks. "O episódio nasceu para ser uma carta de amor", fala ele. "E senti essa pressão ao ver sete membros de Twin Peaks andando no set de Psych. "Esse foi o grande desafio: ser a nossa série e mostrar o quanto a gente ama essa outra série."

 

Reunião. Para Sheryl, a gravação de Dual Stripes foi uma oportunidade de encontrar velhos amigos. "Foi incrível, pois alguns de nós não nos víamos desde Twin Peaks. É inacreditável que se passaram 20 anos", comenta a atriz. "Trabalhar com aquelas pessoas novamente e me sentar no set para tomar um café com elas foi uma ótima experiência."

 

A atriz não se surpreende que ainda haja tantos fãs de Twin Peaks. "Quando as pessoas experimentam uma obra – seja um filme, uma música, um livro, um programa de TV –, elas podem recordar um momento da vida. Acontece comigo de escutar uma música e, ‘bam’, estou de volta àquela época da minha vida", fala Sheryl. "Uma coisa que as pessoas me dizem sobre Twin Peaks é que a série reúne as pessoas. Elas se unem para assistir ou para comentar."

 

A série de David Lynch mudou a vida de Sheryl. "Morava em Seattle, fazia teatro e não pensava em ir para Los Angeles fazer cinema ou TV", lembra. "David (Lynch) viu um vídeo e achou que eu fosse ideal para esse projeto secreto que ele estava desenvolvendo. Fui contratada para trabalhar alguns dias como defunta – filmar alguns flashbacks, ser envolta em plástico e jogada na praia."

 

Depois de filmar o piloto, alguns meses se passaram até que Lynch ligou para a atriz dizendo que ela teria mais trabalho – Sheryl aparece na série também como Maddie, a prima de Laura Palmer. "Fui para Los Angeles e minha vida se transformou do dia para a noite."

 

Coisas de fã. Além de convocar os atores, Roday convidou a cantora Julie Cruise para fazer a trilha sonora do episódio. É dela a voz que embalou os personagens de Twin Peaks nos momentos cruciais da série – como a dança de Leland no bar, quando o agente Cooper recebe, do gigante, uma importante informação.

 

Outra dica do fanatismo do ator pela série é a cena de abertura de Dual Spires. "Há um coelho de chocolate na minha mesa, pois uma das maiores gargalhadas que dei em Twin Peaks foi o momento em que o agente Cooper diz para Diane: ‘Estou segurando em minhas mãos uma pequena caixa de coelhos de chocolate’", diz Roday. "Afinal, não sei se existiriam séries como Boardwalk Empire (da HBO), se Twin Peaks não tivesse vindo antes."

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