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Psiquiatras analisam os personagens de 'Avenida Brasil'

Nina (Débora Falabella), mocinha ambígua, gera identificação na audiência

Cristina Padiglione , O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2012 | 03h20

Nem todo vilão é psicopata. Nem toda mocinha capaz de atos dissimulados é necessariamente calculista: com ações que superam os estereótipos de novela, as personagens que desfilam na atual novela das 9 da Globo, Avenida Brasil, primam por rara complexidade vista no gênero, razão que levou o Estado a pedir a dois renomados psiquiatras do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC) que traçassem seus diagnósticos para os principais tipos criados por João Emanuel Carneiro, autor do folhetim.

Quem de nós não tem uma mágoa do passado e nunca sonhou em se vingar, em situação diferente da ação que motivou a reação, como o tal prato que se come frio? Para Táki Cordás, coordenador da Assistência Clínica do Instituto de Psiquiatria do HC, esse é o mote que atrai a identidade da audiência e justifica o sucesso da novela. Antes de anunciar seus diagnósticos, no entanto, Cordás ressalva que "uma obra de arte tem licenças poéticas, possibilidades infinitas, e é muito perigoso e parcial traçar uma aula de psiquiatria ou um perfil psicológico exato com um personagem de ficção".

Dito isso, o doutor compara a empatia de Avenida Brasil ao enredo de romances como O Conde de Monte Cristo e de Os Miseráveis, dois clássicos que bem poderiam estar na lista de indicações de leitura de Nina (Débora Falabella) a Tufão (Murilo Benício). "A vingança do troco imediato, do 'mandar matar, mandar bater', é menos elaborada e menos masturbatória que a vingança a conta-gotas", define. "A vingança do dilacerar pouco a pouco o outro tem um crescendo de tesão - a personagem, provavelmente, apesar de todo o sofrimento, também se alimenta do gosto paulatino de começar a dominar o outro sem que o outro se perceba, é uma infiltração na vida, na alma e nas relações do outro."

Para Daniel Martins de Barros, coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor), também blogueiro do Estadão.com, Nina "é uma aposta alta na dramaturgia televisiva, uma 'heroína' ambígua, nem sempre de fácil assimilação pelo público acostumado a personagens mais rasos".

O preço a pagar não é baixo, explica Cordás. "Ela tem algumas reações que a gente chamaria de ansiosas, que retomam movimentos muito traumáticos, e o que ela faz? Ela somatiza, ela vomita. Não é intencional. O que ela tem é uma coisa que eu chamei no passado de vômito psicogênico, vômito de asco. Hoje, eu chamaria de reação ansiosa, de aversão pelo que ela vê e não tolera." O fato de ela tramar sua vingança, endossa Barros, "ainda que a Carminha mereça, dá uma pincelada de maldade na mocinha". "É um dos elementos-chave de sofisticação da novela, que desse ponto de vista começa a se aproximar dos seriados atuais, retratando a realidade psicológica mais complexa e menos maniqueísta - afinal, nenhum de nós, na vida real, é sempre mocinho ou vilão.

Ao sobrepor a vingança ao afeto e bater a porta na cara de um Cauã Reymond (intérprete do amado Jorginho), Nina faz uma opção emocional. "Se você investe uma parte do seu afeto numa situação, você empobrece outras, abre mão de algumas áreas da sua vida", diz Cordás. É o que, na psiquiatria, é tecnicamente denominado como "ideia supervalorizada, quase fanática", o que determina um traço de personalidade chamado "retentividade afetiva".

Na outra ponta está a força que mobiliza a mocinha. Carminha (Adriana Esteves) não deve ser tratada, na opinião clínica de Cordás e Barros, como psicopata, mas ela tem, admite Cordás, o "estereótipo do psicopata que a gente chamaria de amoral, antissocial, é o indivíduo que não consegue se pôr no lugar do outro". É o que os criminalistas chamam de psicopatas e os psiquiatras definem como transtorno de personalidade amoral, ou antissocial, ou inafetivo. "Ela é o perfil do psicopata aproveitador, predatório, ela tem uma personalidade predatória", diz Cordás.

Futebol. Para ele, Tufão é o personagem mais inverossímil do enredo. Não se tem notícia de um jogador de futebol tão inexperiente com mulheres, que tenha jogado pela seleção e mal saiba onde fica Buenos Aires. Barros contemporiza: "O personagem dá sequência à rica tradição que vai de O Príncipe e o Mendigo até as comédias pastelão, do sujeito de origem humilde que de repente se vê lançado num universo de luxo sem tempo para se adaptar à nova realidade".

E o que dizer da infantilização do casal Ivana (Letícia Isnard) e Max? "Ela tem uma sensibilidade tão profunda quanto a de uma poça d'água", cita Cordás. "Você percebe quando alguém transa com você não de uma maneira sensual, erótica, mas de maneira genital - ela não." Ivana só não é cega em um ponto: "ela tem a chave do cofre", reforça Cordás. Sabe que o sujeito é encostado, mas é seu homem, e é pago.

Entrevistados separadamente, ambos empatam num diagnóstico: a família ali tem algo de A Grande Família. "Eles comem em talheres de prata, mas a alma da família é aquela jarra de abacaxi da Grande Família", cita Cordás. "O Tufão é o Lineu (Marco Nanini) piorado. O cunhado, Max (Marcello Novaes), é o Agostinho (Pedro Cardoso) piorado. Apesar de poderem viajar pelo mundo, eles vivem há 15 anos comendo margarina."

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