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Psicólogo fala sobre mitomania e os grandes fabuladores da história

Em seu livro lançado agora no País, José María Martínez Selva trata de Nixon a Günter Grass

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 19h11

De Nixon ao escritor alemão Günter Grass, Nobel de Literatura, que confessou, em 2006, ter pertencido à Waffen-SS nazista, passando pelo francês Jean-Claude Roman, que enganou a família ao fingir ser por médico de uma organização internacional, matando os pais, mulher e filhos para não ter de contar a verdade, o mundo está cheio de mentirosos. Em seu livro A Grande Mentira, lançado pela editora Perspectiva, o psicólogo espanhol José María Martínez Selva explora esses e outros casos de intelectuais, políticos, esportistas e jornalistas que engaram o público para obter vantagens – ou simplesmente conquistar o afeto das pessoas.

Em entrevista ao Caderno 2, o psicólogo fala de Günter Grass, de Jean-Claude Roman e do mitômano Enric Marco, que simulou ter passado por um campo de concentração nazista, todos obrigados a confessar suas grandes mentiras em busca de redenção. Diz ainda que políticos mentem com maior facilidade por depender da simpatia alheia, alertando que existem mentirosos compulsivos mais perigosos, que afetam e causam danos à sociedade em que vivem. 

A mitomania afeta pessoas com um nível de autoestima baixo. Existem outros traços específicos de personalidade que caracterizem os mitômanos?

A mitomania é um termo genérico, que se pode definir como uma tendência incontrolável a mentir, e pode surgir sem estar associada a desvios de personalidade. Um traço específico de personalidade com frequência associado à mentira compulsiva é a psicopatia. O psicopata usa a mentira para conseguir de sua vítima aquilo que deseja: dinheiro, sexo, poder, influência social. Isso sem esquecer que há psicopatas que empregam uma sinceridade brutal para ofender ou causar danos.

O objetivo dos mitômanos é ser sempre o centro da atenção. Existem outras razões tão fortes para que a pessoa se converta em mitômana?

Uma pessoa pode começar a mentir e virar mitômana por outras razões. Por exemplo, para evitar um castigo por algo errado que fez, para não ser despedida do emprego ou para evitar a perda de afeto do outro. A necessidade de fazer parte de um grupo e ser aceito, muito forte entre adolescentes, pode levar alguém a mentir para se sentir importante ou merecedor de integrar um grupo. Outras vezes se mente para manipular o outro – ou outros. Se uma pessoa observa que sua conduta mentirosa obtém êxito, pode acontecer que ela continue levando a cabo esse costume com outras pessoas e em outras situações. Na maior parte dos casos, quem está ao lado do mentiroso se dá conta da mentira, atraindo para ele graves danos em suas relações pessoais. Seus amigos não o levam mais a sério e sua companheira o abandona, por exemplo.

Em 2005, o mitômano Enric Marco afirmou ter estado no campo de concentração de Flossenbürg sem nunca ter ao menos passado perto dele. Por que mitômanos como Enric Marco gostam de enganar as pessoas?

O caso Enric Marco é especial porque ele não é o tipo de mitômano fabulador, mas um mitômano que quis se aproveitar dos demais para conseguir uma posição melhor, mais poder ou influência. É uma fraude intencional, não uma fabulação, relacionada com psicopatologia. Ao ser descoberto, Marco reconheceu seu erro, deu justificativas ideológicas baseadas em perseguir e condenar o nazismo e, finalmente, se arrependeu. Ele fez uso instrumental da mentira em sua vida sindical e política.

Onde está a fronteira entre a mentira considerada normal e a mentira patológica?

Na mentira patológica habitual, a pessoa não controla seu comportamento, é incapaz de deixar de mentir. Mente sempre que pode. Isso lhe causa problemas, arruína sua vida social e pode provocar angústia, além de rejeição por parte dos demais. O limite mostra-se quando a pessoa não pode levar adiante seu trabalho ou a vida familiar. Às vezes o quadro é angustiante. A pessoa sofre demais por sua falta de controle. Outros casos de mentira patológica são menos frequentes e mais graves, como a “pseudologia fantástica”, transtorno histriônico de personalidade conhecido como “síndrome de Münchhausen”.

No caso do Nobel de literatura Günter Grass, a mentira que tentou forjar uma outra identidade levou o escritor a acreditar, inclusive, nessa nova vida, renegando a passada, que só recentemente ele teve coragem de revelar, a de um oficial a serviço do nazismo. Como explicar Grass?

A mentira de Grass foi mais de ocultação que a criação de uma nova identidade. É frequente entre pessoas que desejam esconder acontecimentos do passado que possam prejudicar seu status social, profissional, econômico ou mesmo seu poder. As circunstâncias que tornaram o episódio especial foi o fato de Grass ser um escritor famoso e uma referência da esquerda a nível global – e tudo isso se agrava por ele ter protelado por tanto tempo a revelação de seu passado. Em princípio, trata-se de um homem recrutado compulsoriamente a lutar como oficial da SS. Se não fosse alguém tão importante como Grass ou tivesse uma ideologia tão marcada, não teria provocado tanta revolta. Penso que ele omitiu esse fato por várias razões: vergonha, culpa e também por medo da rejeição social. Havia muito em jogo, o que explica porque ele demorou tanto para revelar a verdade.

Um caso famoso de mitomania é o do médico Jean-Claude Roman, que não perseguia um benefício financeiro, mas desfrutar de prestígio, fingindo para a família que ia trabalhar todos os dias. Como explicar esse comportamento reiterativo? Por que é difícil para um mitômano começar um tratamento?

Além de desfrutar prestígio social e econômico, esconde-se atrás desse comportamento algo ainda mais inquietante. Vistos em perspectiva, os graves crimes que cometeu e a forma com que se aproveitou das pessoas definem um caso de psicopatia. Não há tratamento para a psicopatia. Temos que evitar os psicopatas, se possível.

Por que os políticos são mais mentirosos que outras pessoas?

O político tem necessidade de conquistar pessoas, de seduzir para que o apoiem, votem nele. Tem de dizer que sua mensagem é melhor que a do adversário, fazer promessas, falar de um futuro que é imprevisível. Nesse processo, é difícil que não mintam – e muitos aprendem a mentir bem, confirmando o ditado de que a prática leva à perfeição. Por outro lado, como acontece com todas as pessoas obrigadas a manter uma imagem pública favorável, o político é levado, cedo ou tarde, a ocultar qualquer coisa que possa prejudicá-lo ou destruir sua imagem. 

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