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Psicanálise do Rei

Ponto forte do filme com Colin Firth é relação entre monarca e seu terapeuta

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

Sobre O Discurso do Rei, precisamos lembrar que é o filme com maior número de indicações para o Oscar. O que não significa que vá ganhar, mas o torna favorito ou um dos prováveis vencedores. Em seguida, convém esquecer essa circunstância de competição e olhar o filme, em si. Baseado na história real do rei George VI, o filme se passa em época particularmente dramática - a declaração de guerra à Alemanha nazista. O que, todos sabiam, levaria a Europa, talvez o resto do mundo, a um conflito longo e sangrento. É nessa circunstância que o novo rei é obrigado a assumir, porque seu irmão mais velho decidira se casar com uma plebeia norte-americana. O rei (Colin Firth) tem um defeito de fala que vem da infância - é gago. Um grande problema para quem, por força do cargo, é obrigado a falar em público.

O maior encanto do filme reside no relacionamento entre George VI e seu terapeuta da fala, o desabusado Lionel Rogue (Geoffrey Rush). Australiano, inovador e provavelmente conhecedor das teorias de Freud, Rogue supõe que a gagueira seja mais inibição psíquica do que disfunção orgânica. Nesse sentido, o aspecto principal do seu trabalho será quebrar determinada barreira emocional - o que é sempre mais difícil em pessoas cheias de protocolos. Imagine-se num rei. Rogue, por exemplo, insistirá em chamá-lo de "Bertie", seu apelido familiar, e não de Sua Majestade.

A estratégia tem valor terapêutico e também serve aos propósitos do filme. O fascínio pela realeza, em particular pela casa Windsor, só aumenta quando vemos um dos seus membros "humanizados". Quer dizer, despidos de sua aura real e comportando-se como um comum mortal, com suas dúvidas, sofrimentos, fraquezas e limitações. É um de nós. E, ao mesmo tempo, é diferente de todos nós porque, mesmo humanizado, continua a ser um rei.

Nessa relação de dupla face, aumenta o potencial da amizade entre Rogue e George VI. Porque é disso, no fundo, que se trata: uma história de superação, baseada nem tanto em recursos terapêuticos, mas em uma relação de simpatia que acaba insuflando confiança no monarca cheio de problemas e inibições.

É claro que O Discurso do Rei poderia ser menos convencional como linguagem cinematográfica. Acusam-no também de falsear parte da verdade, porque parece que o futuro rei nutria certa simpatia pela Alemanha nazista, que dura até o momento em que a Inglaterra declara guerra ao Reich. Mas também é fato que, vencidas suas inibições e inclinações, o rei comporta-se de maneira exemplar durante a guerra, ajudando a manter o moral do povo. Na biografia de Winston Churchill, escrita por Roy Jenkins, lê-se que o lendário primeiro-ministro ficou devastado com a morte de George VI em 1952. Isso é História. O filme, baseado em ótimos diálogos, e grandes atuações, emociona.

O DISCURSO DO REI

Nome original: The King"s Speech. Direção: Tom Hooper. Gênero: Drama (Reino Unido-Austrália/2010, 118 min.). Censura: 12 anos.

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