Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Psicanálise deitada no divã

Em Veneza, David Cronenberg mostra relação entre Freud e Jung

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / VENEZA

Dois belos filmes deram sequência à mostra competitiva em Veneza: Un Été Brûlant (Um Verão Escaldante), de Philippe Garrel, e A Dangerous Method (Um Método Perigoso), de David Cronenberg. O primeiro dividiu o público. O segundo recebeu um longo aplauso na sessão de imprensa e profissionais do cinema.

E, de fato, A Dangerous Method aborda com precisão, sensibilidade e compreensão seu tema, os anos de solidificação da psicanálise, envolvendo um trio de personagens, Freud, Jung e Sabina Spielrein. Sigmund Freud (Viggo Mortensen) inventou a psicanálise. Carl Gustav Jung (Michael Fassbender) foi um dos seguidores de Freud, era tido como seu sucessor, mas romperam e ele trilhou caminho próprio. Sabine (Kiera Knightley) é menos conhecida. Russa, internada na clínica de Zurich onde Jung trabalhava, foi sua paciente, depois amante, e voltou para a Rússia onde desenvolveu extensa carreira como analista.

O que se pode dizer do filme é que Cronenberg coloca entre parênteses seu gosto pelo grotesco e o dirige da forma a mais sóbria possível. Capta um momento preciso da aventura psicanalítica, quando a teoria já não era mais novidade, porém enfrentava ainda (como enfrenta até hoje) resistência em setores da medicina. Freud quer limitá-la ao campo científico. Jung tem tendências místicas, que procuram relativizar o fator sexual, para Freud a pedra fundamental do edifício teórico. Rompem. Entre os dois, Sabine, que representa, para Freud, o mistério feminino, e para Jung, o desafio da própria sexualidade. Talvez outra atriz, com mais sex appeal, funcionasse melhor. Mas esse é um detalhe. O filme é tratado de maneira límpida, luminosa, com imagens como as de um quadro de Vermeer.

Sexualidade à flor da pele é o que não falta a Monica Bellucci, pivô da história de amor trágico de Un Été Brûlant. Ela é a atriz Angèle, que vive com o pintor Frederick (Louis Garrel). A eles se une outro casal de amigos, e os quatro passam juntos um verão em Roma, cheio de revelações e decisões fatídicas. Monica, esplendorosa, é fotografada como o foi Brigitte Bardot em O Desprezo. Não é a única referência ao filme de Godard, mas esse culto ao corpo da mulher, esculpido pela luz, é um dos mais saborosos clichês da nouvelle vague, da qual Garrel é herdeiro e praticante tardio.

Un Été Brûlant transita entre os polos do amor e da amizade. A relação que se estabelece entre Paul (Jérôme Robard) e Frédéric (Louis Garrel) encontra paralelo na cumplicidade entre Angèle (Bellucci) e Elizabeth (Céline Salette). Mas o que ressalta é mesmo a afinidade entre os dois homens. Natural: Philippe Garrel dedica seu filme a um amigo morto e diz que o fez como uma espécie de trabalho de luto. Seu próprio pai, o ator Maurice Garrel, que morreu em junho aos 88 anos, aparece em uma cena. É um filme de mortes e mortos, mas também de vida, erotismo, amizade e amor.

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