Dennis Fidalgo/AE
Dennis Fidalgo/AE

Próximo projeto de Walter Salles deverá ser rodado no deserto chileno

Livro 'A Contadora de Filmes', do escritor Hernán Rivera Letelier, fascinou cineasta brasileiro

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

20 de abril de 2012 | 03h08

O deserto do Atacama, no Chile, deverá ser palco do próximo longa de Walter Salles. "Ele já esteve aqui, pesquisando locações e, pelo que soube, as filmagens podem começar até o final deste ano", disse o escritor chileno Hernán Rivera Letelier, autor de A Contadora de Filmes, livro que está nos próximos planos do cineasta brasileiro. A tradução para o português acaba de sair pela Cosac Naify, inclusive com uma apresentação escrita pelo próprio Walter Salles.

Letelier, que já aprovou uma primeira versão do roteiro, entende o fascínio do diretor pela história. "A trama mostra uma forma de resistência que muito se assemelha ao cinema de Walter", disse o escritor ao Estado, falando por telefone, do interior do Chile, região onde nasceu e cresceu - ele passou boa parte de sua existência no Atacama, trabalhando como mineiro. Mesmo sem formação acadêmica, Letelier trocou as salineiras pelas letras sem abrir mão das lembranças de momentos mágicos, como as partidas de futebol, diversão que se transfigurava no próprio motivo da existência, ou as idas ao cinema.

É justamente a sétima arte que inspira A Contadora de Filmes. A trama se passa no fim dos anos 1950, quando Maria Margarita, filha caçula de uma família de mineiros, ganha fama no povoado por se transformar em exímia narradora das películas exibidas semanalmente no cinema local.

A função surgiu graças a uma paixão do pai: impossibilitado de frequentar as sessões dominicais por conta de um acidente na perna, ele promove um concurso entre os filhos para eleger o melhor contador de filmes.

Apaixonada pelas "tramas lacrimejantes dos filmes mexicanos, a saia esvoaçante de Marilyn Monroe e pelas novas aventuras de John Wayne", como Salles observa na introdução, Margarita torna-se a vencedora.

De fato, sua narrativa colorida, recheada de gestos e canções (detalhes que, muitas vezes, nem estão no original) envolve e inebria a imaginação do pai. Na verdade, de todo o povoado, pois, com o tempo, sua fama de exímia contadora começa a correr, a ponto de atrair público disposto a pagar um ingresso pela oratória da menina pobre que, graças ao cinema, consegue sonhar com vidas melhores que a sua.

"Minha paixão pelo cinema é semelhante", conta Letelier. "Lá nos pampas onde vivi, os filmes eram exibidos diariamente, um diferente a cada dia. Assim, eu tinha a possibilidade de assistir até a 365 longas em um só ano."

Era inevitável, portanto, que isso fosse influenciar sua escrita - simples, direta, mas com profundidade. "Alguns críticos afirmam que meu texto tem uma estrutura cinematográfica. Sinceramente, não sei dizer, pois não entendo desses conceitos, mas inconscientemente há, sim, uma influência do cinema."

O amadurecimento em uma região desértica também foi essencial à sua formação literária. Letelier conta que o Atacama o ensinou a conhecer a si mesmo, até mesmo a aprender a suportar seus limites. "Essa possibilidade de reflexão é essencial - eu conseguia ouvir o silêncio", observa. "Percebo que isso falta muito às pessoas que vivem em grandes centros urbanos hoje: normalmente, elas se refugiam na internet, mas pouco ganham em troca."

Tal deslumbramento com o nada é refletido em sua obra. Foi assim em O Fantasista (Rocco), que se concentra na importância do futebol ao povoado, e também em A Contadora de Filmes.

Afinal, ali, em meio a uma aridez desoladora, em um lugar no qual a finitude da existência é lembrada a cada segundo, a alegria de seus moradores, inicialmente patética, logo assume ares de vitória no sentido mais amplo da palavra graças às narrativas de Margarita.

Curiosamente, a ideia do livro surgiu por acaso, quando revia amigos na região de Antofagasta. Um amigo contou sobre um primo que, graças à maravilhosa oratória, tornou-se o contador oficial de filmes de sua família pobre. "Aquilo me fascinou, mas decidi que seria uma menina dos anos 1950, quando o cinema exercia um fascínio ainda maior naquelas pessoas."

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