Próxima dupla

Em testes feitos em casas noturnas, artistas country e sertanejos lutam por um lugar ao sol

CRISTIANE BOMFIM, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h08

Passam das 20h30 quando Giovani e Denílson são convidados para subir no palco de uma casa de shows especializada em música sertaneja. A plateia é formada por apenas três homens que, sentados em bancos altos, observam desde a afinação da dupla até as roupas escolhidas para a apresentação. Os cantores têm direito de mostrar seis músicas e, para começar, escolhem E daí?, de Guilherme & Santiago. Enquanto cantam, o trio cochicha e faz algumas anotações.

É uma noite de audição. Outras duas duplas serão avaliadas numa espécie de Ídolos da música sertaneja, com a diferença de que os candidatos não são constrangidos após a apresentação. Como prêmio, os melhores têm a chance de fazer parte da programação do Country Beer, em São Caetano, e da Villa Country, na Água Branca, zona oeste da capital. Juntas, as duas casas revelaram nomes que movimentam altas cifras no meio, como Edson e Hudson e Victor e Léo.

"Por semana recebemos cerca de 20 CDs de cantores sertanejos. Os melhores são chamados para uma apresentação ao vivo. Queremos artistas com diferencial", explica Carlos Anhaia. Ele é um dos avaliadores e diretor musical das duas casas.

"Dá muito frio na barriga", conta Denilson da Silva Santos, de 32 anos, depois da palhinha. Com um guardanapo, ele seca o suor do rosto. As mãos estão geladas e ele sente sede. Há pouco mais de um ano, ele e o irmão Giovani da Silva Santos, de 34 anos, trocaram a cidade de Poços de Caldas, Minas Gerais, pela capital paulista em busca de reconhecimento e sucesso. A dupla formada em 2004 já gravou dois CDs e um DVD.

Com o sucesso do estilo que ganhou ar pop a partir de 2007 com o estouro da música Pega Fogo Cabaré nas vozes de João Neto e Frederico, dupla sertaneja é o que não falta. Por isso, cantar bem não basta. O caminho para a fama é bem mais complexo. "Procuramos quem tem voz acima da média e com presença de palco", diz Alexandre Monteiro, sócio do Country Beer.

As exigências começam com o visual. "Nosso público é jovem e moderno. Não usa chapéu e calça agarrada. Então não faz nenhum sentido a dupla aparecer aqui com camisa xadrez, fivela, bota e chapéu", fala Anhaia. Cuidado com o vestuário também é requisito básico para tocar no Wood's Bar, na Vila Olímpia, zona sul da capital.

Com a concepção de balada sertaneja chique - tem como um dos sócios Sorocaba, da dupla Fernando e Sorocaba, e a entrada não sai por menos de R$100 -, a casa foi inaugurada em novembro e também faz a seleção dos cantores em audições. "O sertanejo é uma coisa totalmente pop, usa tênis e camiseta", diz Rafael Setrak, sócio da casa.

"Há muitas duplas boas. Mas ser bom é pouco. Tocar violão é básico e saber compor é fundamental. O diferencial pode estar no timbre de voz, na presença de palco, no charme do artista", diz Anhaia, que conta ter se surpreendido com a apresentação de Victor e Léo durante seleção da Villa Country. "Saquei de cara que eles eram diferentes, que tinham sinceridade no que faziam, só não imaginei que iriam chegar onde estão."

Para o cantor Sorocaba, o boom da música sertaneja criou a "ilusão" de que viajar o País, arrebatar fãs e ganhar muito dinheiro é fácil para quem forma uma dupla. "Mas o problema é que está tudo muito igual. Isso cansa o público e sempre há a seleção natural. Pouca coisa do que toca hoje vai ficar", diz.

Formada em São Paulo, a dupla Marcos e Belutti não acredita em fórmula para o sucesso. "Tem que ter talento, carisma, percepção do que está acontecendo hoje com a música sertaneja. No começo, quase não tocávamos músicas nossas, mas se você quer ser grande, tem que pensar grande", conta Belutti.

No fim da audição, as três duplas são aplaudidas pelo público pequeno, mas exigente. O resultado é dado por telefone. "Levamos em consideração o nervosismo das duplas e preferimos explicar o que precisa melhorar alguns dias depois, quando o estresse da avaliação já passou", afirma o sócio do Country Beer Alexandre Monteiro.

Por causa da audição, Giovani e Denilson foram convidados para tocar na Villa Country. Fizeram a primeira apresentação duas semanas depois. "Ninguém gosta de ser avaliado e ouvir de alguém que mal te conhece conselhos. É difícil, mas é assim que funciona", diz Giovani.

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