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Proust e Colette

Quis o destino, que gosta dessas coisas, que dois espécimes da vida parisiense se encontrassem na Place Vendôme, certa tarde: Marcel Proust e Colette

Luis Fernando Verissimo, Impresso

02 de dezembro de 2018 | 02h00

Quase no fim da 1.ª Guerra Mundial (a Grande Guerra, a que acabaria com todas as guerras), os alemães montaram um grande canhão sobre trilhos, com poder e alcance até então inéditos e um único fim: bombardear Paris. O canhão ganhou o apelido de Big Bertha pelo seu tamanho e, dizem, em homenagem à mulher do Krupp, dono da fábrica que o construíra, que presumivelmente lembrava um canhão. Mas isso pode ser maldade de parisienses ressentidos.

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Começava então um confronto que se repetiria com o passar do tempo e o desenvolvimento de armas cada vez mais terríveis: o das cidades como símbolos de civilização e convívio contra os meios de destruí-las, símbolos da irracionalidade humana. Ou de um tipo de racionalidade perversa, que quer a destruição de tudo que simbolize cultura, arte ou vida inteligente para nos devolver às cavernas. Se o Big Bertha tivesse mais tempo teria transformado boa parte de Paris em entulho. Anos mais tarde, na outra Grande Guerra, Hitler ordenaria que Paris fosse queimada, para aprender a não ser Paris. Foi desobedecido.

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Quis o destino, que gosta dessas coisas, que dois espécimes da vida parisiense se encontrassem na Place Vendôme, certa tarde: Marcel Proust e Colette. Os dois jovens, os dois escritores começando a aparecer, os dois autores de texto rarefeito, um homossexual e a outra bi. Proust já tinha publicado o primeiro volume do seu Em Busca do Tempo Perdido, recebido com discretos elogios, e preparava o segundo. As noveletas de Colette já tinham um público certo, mas sucesso relativo. Conheciam-se apenas superficialmente, dos salões literários que frequentavam. O encontro na Place Vendôme também não teria passado de abanos de longe se não tocasse uma sirene anunciando que um projétil do Big Bertha se aproximava, forçando os dois a buscar refúgio no Hotel Ritz.

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Sei tudo isso de uma biografia da Colette, mas a conversa dos dois no bar do Ritz é imaginária. Imagino que conversaram sobre o Big Bertha, sobre o incômodo daqueles bombardeios sem hora certa. Colette perguntou se as explosões estavam afetando o estilo de Proust. “Meu estilo e meus cristais”, disse Proust. “Eu também não consigo trabalhar”, disse Colette. “Os alemães não sabem como estão influenciando a literatura francesa com a retórica bombástica do seu canhão”, disse Proust. “Nós vamos vencê-los, Marcel?”, perguntou Colette. “A guerra? Claro. Ouvi dizer que já tem tropas alemãs se entregando”, respondeu Proust. “A guerra não, Marcel. Nós, o nosso talento, a nossa arte, contra as Big Berthas que virão”, disse Colette. “Temos que vencer, Colette. Eu ainda preciso escrever mais seis volumes do meu Em Busca do Tempo Perdido.”

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