Protesto!

Existe uma campanha para revisar as letras de canções infantis que vêm sendo cantadas há anos sem que os responsáveis pelas crianças se deem conta do seu conteúdo. O caso mais notório é o do gato atingido por um pau, que não morre, como era a intenção de quem atirou o pau, mas dá um berro que faz dona Chica dimirar-se-se e - presume-se - foge da cena, traumatizado. Sabe-se pouco sobre a origem da canção e a história por trás da sua letra. Atirar um pau num gato pode ser uma ação preventiva (ninguém sabe o que o gato iria fazer com a dona Chica) ou a manifestação precoce de um instinto assassino na criança, que deve receber orientação psicológica antes de ter acesso a armas mais sofisticadas. De qualquer maneira, a canção revela um perturbador descaso pelos sentimentos de outro ser, por mais antipático ou atrevido que este seja, e por mais pelos que solte nos sofás, e é um péssimo exemplo para mentes ainda em formação.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

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A canção Atirei o Pau no Gato sobreviveu sem ser examinada todos estes anos porque nenhum gato pôde protestar. Como representante da espécie, farei o possível para que o mesmo não aconteça com outro animal de sangue quente rotineiramente vitimado por impropérios e projéteis verbais mais contundentes do que paus, em canções infantis. Refiro-me aos avôs. Na condição de neoavô, tenho tido contato frequente com essas tentativas de ridicularizar a categoria, fomentando o desrespeito à autoridade e o escárnio aos mais velhos e ameaçando o tecido social e os valores tradicionais da família.

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Basta um exemplo do que se escuta por aí, muitas vezes cantado por crianças que mal começam a falar e só repetem o que ouvem:

"Eu vi uma barata na careca do vovô e quando ela me viu bateu asas e voou."

Notem a insídia mal disfarçada pela singeleza do verso. Em primeiro lugar, a sugestão de que todo avô é, por definição, careca. Mesmo os que, como eu, ainda têm mais de 17 fios na cabeça e portanto não ultrapassaram o limite oficial da calvície. Outra sugestão infamante é a de que o vovô, de tão desleixado e/ou alienado, não notaria a presença de baratas passeando pela sua cabeça. Que dependeria de netos que fizessem voar as baratas para não dar vexame em ocasiões sociais e não ouvir piadas na rua sobre sua higiene pessoal e sua sanidade. Ainda somos perfeitamente capazes de detectar baratas na nossa própria cabeça e enxotá-las com nossos próprios meios!

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Mas há mais. Uma versão agravada da mesma letra leva o desrespeito às raias da injúria. Segundo esta versão, localizou-se uma pulga na cueca do vovô, o vovô deu um pum e a pulga desmaiou. O vovô deu um pum e a pulga desmaiou! Desde quando avô tem pulga na cueca? Desde quando avô dá pum? A que ponto chegamos, quando se recorre até a flatulência hipotética para denegrir aquele que deveria ser apenas objeto de veneração? Em nome da classe, protesto.

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