Prosas de Sábado

Lembrar versus esquecer

Silvano Santiago - silvano.santiago@estado.com.br,

14 de abril de 2012 | 09h51

De um desabafo confessional, em que o crítico de arte relata o terrível acidente vascular cerebral (AVC) sofrido, brota um ensaio denso e raivoso sobre seis artistas exemplares da cena contemporânea. Esse é o duplo e notável estatuto do livro Under Blue Cup (MIT, 2011), de Rosalind Krauzs, decana dos críticos de arte norte-americanos.

Em fins de 1999, Rosalind abandona o exercício profissional. Sofre um aneurisma que desconecta sinapses e varre neurônios. Depois de três neurocirurgias, enfrenta um programa de reabilitação física e cognitiva. O intuito é o de fortalecer a memória em curto prazo. A recapacitação física requer a atleta.

Tem de aprender a “saltar por cima das poças” (das lesões no cérebro). A cognitiva leva à recuperação da memória pelo uso de fichas (flash cards, no original). Nelas, estão pedaço desordenado de frase ou simples desenho. Depois de 20 minutos, a paciente tem de se lembrar do lido ou visto. A primeira das fichas trazia escrito “under blue cup” e dá título ao conjunto das anotações críticas que visam a explorar o paradigma da memória versus o esquecimento na arte do presente.

Oponente do “espetáculo de meretrício artístico chamado instalação”, Rosalind ridiculariza Catherine David e o “moralismo político” que a curadora encenou em Documenta X (1997). Ao ridicularizá-la, acata a teoria desenvolvida por Jean-Luc Nancy em Les Muses (1994). O filósofo francês pergunta por que existem várias musas (várias artes) e não apenas uma. Ao optar pelo coletivo, Nancy postula que a manifestação artística se define pelo “singular plural”.

Vários suportes estéticos convivem na obra e alavancam o singular arte. Cada um deles encaminha o trabalho artístico único. Sob o manto plural das musas, a arte é singular. Em mãos de Rosalind, a proposta de JeanLuc Nancy tem alvo. Visa a dinamitar o princípio da “especificidade” de cada uma das musas (de cada meio artístico), defendido pelo crítico Clement Greenberg. Como meio (medium), a pintura teria suas regras próprias e intransferíveis, e por elas seria analisada.

Também a escultura e o desenho. Ao detonar o “dogma reducionista” de Greenberg, que isola artesanal e semanticamente cada meio, Rosalind busca abrigo nas regras multifacetadas das guildas medievais, época em que os vários artesanatos eram compreendidos pela complementaridade. Os “suportes estéticos” estabilizam e reativam o diálogo entre as várias artes no objeto único que o artista produz, aliviando-o da inflexibilidade do específico. Meios diferenciados (pintura, escultura, desenho, etc.) “inventam” o trabalho de arte singular/plural.

Antes do “modernismo tardio”, de que é teórico Greenberg, a vanguarda já era singular/plural. Marcel Duchamp, por exemplo, recorria a suportes estéticos imprevisíveis. Põe em xeque o estatuto da arte sem examinar a especificidade da pintura, ou da escultura. Ao renegar o modernismo tardio”,o artista atual opera também um deslocamento significativo no tipo de suporte eleito pelos vanguardistas. 

Acrescenta ao elenco dos suportes estéticos o “técnico”. Os suportes técnicos são tomados das formas disponíveis da cultura de massa: vídeo, desenho animado ou filme, automóvel ou jornalismo investigativo.

O suporte técnico torna o específico de cada meio (de cada musa) sem serventia para o artista atual.

A partir da especificidade obsoleta, o artista neutraliza o império teórico discursivo assumido pela noção ditatorial de meio(medium). Daí decorre que as obras analisadas por Rosalind trabalhem a arte pelo recurso à multiplicidade de meios. Eles se valem de “suportes técnicos” variados. Orientam a época atual e a definem como a da “condição pós-meio” post-medium condition).

O vídeo Ubu Diz a Verdade, do sul-africano William Kentridge, combina imagens de filmes documentários com fotografias, marionetes e desenhos do artista. Kentridge reativa o conjunto heterogêneo pela técnica do cinema de animação. Expõe um desenho animado. O alvo de Ubu Diz a Verdade é a Comissão Verdade e Reconciliação. Na África do Sul, a infração aos direitos humanos, se confessada, é esquecida.

Como, por que e para que relembrá-la? No mapeamento da cidade, o artista pop Ed Ruscha transforma o automóvel em suporte técnico. Nas fotos reunidas no livro 26 Postos de Gasolina, o carro serve de dolly para o traveling cinematográfico da viagem na memória. À semelhança dos atuais DJs,o californiano Christian Marclay usa bolachas e toca discos em busca de colagens sonoras, explorando também a sincronização das trilhas sonoras de filmes comerciais.

Por 24 horas, seu filme O Relógio compila cenas de filmes relacionadas com a passagem do tempo. O irlandês James Coleman apresenta suas fita-de-slides (uma versão primitiva do Power point) em que o sujeito do trabalho não é a imagem, mas o próprio processo dever.

O sujeito é desconstruído (rasurado) e reconstruído (relembrado). Em caminhadas gravadas em vídeo, Bruce Nauman recorda o tema da promenade na arquitetura moderna. Sophie Calle parodia o jornalismo investigativo. Ao passar as páginas de um livro, o belga Marcel Broodthaers mostra imagens sucessivas de iate que navega.

O vídeo do livro é história da arte: abre-se pelas marinhas de Manet e prossegue na exaltação do velejar pelos impressionistas. Os exercícios sobre imagem e som do alemão Harun Farocki têm como ateliê a ilha de edição (v. o vídeo Interface).

O suporte técnico não é só um meio; é uma regra. Uma regra que se adequa ao meio que o artista inventa” e o fortalece. O artista comuniza as várias regras para inventar um denominador comum, um meio singular/plural. Um meio pós-meio. Under Blue Cup traz a proposta de uma bela e exigente curadoria, inventada pelo paradigma da memória versus esquecimento.

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