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Humberto Werneck
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Prosaica vida de poeta

Quase meio século depois, ainda posso ver o poeta entrar na redação do Suplemento Literário, na Imprensa Oficial de Minas, a mesma sala de vasto pé direito onde um dia trabalhou o jovem Carlos Drummond de Andrade, apertar a mão de cada um, trocar amabilidades com nosso comandante, Murilo Rubião, aboletar-se no sofá marrom e ali, tarde adentro, nos encantar com sua conversinha boa.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

21 Julho 2015 | 03h00

Visitante mais que semanal, Bueno de Rivera acabou fazendo parte da nossa paisagem. Sempre de gravata, sorridente e gordo, de uma gordura uniforme que lhe enchia o terno escuro, sua figura não correspondia em nada à ideia que eu, na adolescência, fizera de um poeta – pobre diabo magro e pálido, quiçá tuberculoso, com olheiras abissais e ombros polvilhados de caspa. Foi um ser assim, meio Augusto dos Anjos, que imaginei quando, no colégio, a professora leu para nós o “Itinerário de Ângela”, em cujo fecho a musa, “pura e serena”, caminha ao “encontro do afogado”. E agora ali estava, nédio, saudável e próspero, o afogado em questão. O autor de versos tão delicados era o criador, também, de um nada poético guia de ruas de Belo Horizonte, o Guia Rivera, graças ao qual levava vida confortável. 

Reverente, mandei encadernar e lhe pedi que autografasse meu exemplar de Mundo Submerso. Bueno, lisonjeiro, encheu toda uma página com afagos em letra miúda. Lamentou que no lançamento, em 1944, eu não passasse de “um menino de jardim de infância”: “Se naquele tempo você possuísse os bigodes de hoje, e o talento de hoje, por certo receberia este livro”. Inchado, mostrei a dedicatória a um colega de redação, e o espírito de porco foi dizer ao poeta que em 1944 eu não era nascido. Bueno pediu o exemplar de volta e, na margem, desculpou-se: “Pelo que soube, você nasceu em 1945. Ah! é por isso que não recebeu o livro. Você não existia. Como você cresceu, hein?”.

Poeta sem caspa, até por não lhe restar muito cabelo, Bueno de Rivera foi um dos expoentes da Geração de 45, rótulo que empacotou promiscuamente todos os vates cuja estreia em livro se deu em torno de 1945. “Desses rapazes novos”, escreveu Vinicius de Moraes a Manuel Bandeira em 1949, “gosto muito de João Cabral, de alguma coisa do Lêdo Ivo, de alguma coisa do Bueno de Rivera, e acho que é só”. 

Foi Vinicius que, tendo conhecido o poeta numa visita a Belo Horizonte em 1942, batalhou junto à José Olympio a publicação de Mundo Submerso. Em São Paulo, Antonio Candido detectou influência de um Carlos Drummond “que houvesse dissolvido a sua tanto ou quanto rigidez – o baque hirto de certos versos seus – nas larguezas melódicas e quase virtuosísticas de um Vinicius de Moraes”. 

Muito se esperava de Bueno de Rivera, e ele confirmou expectativas com Luz do Pântano, de 1948, mas não foi muito mais adiante. Sua obra se fecharia com Pasto de Pedra, em 1971. Chegou a anunciar As Fúrias, que não saiu. Até a morte, em 1982, aos 71, respondia a quem lhe perguntava por livro novo: “Está todo aqui na minha cabeça”. Ao repórter Regis Gonçalves, explicou: “Eu escrevo pouco, não por preguiça, mas porque fico chocando”. De raro em raro, publicou poemas que Affonso Romano de Sant’Anna incluiria numa seleta de sua obra, lançada pela Global em 1997.

Antes de criar, em 1950, o guia de ruas que lhe asseguraria a sobrevivência, Odorico Bueno de Rivera Filho teve ofício ainda mais prosaico. Laboratorista do serviço público, cabia-lhe examinar amostras provenientes de cada canto da capital mineira – e, diz a lenda, limitava-se por vezes a classificá-las conforme a região de que viessem, ricas ou pobres, com isso criando o que o amigo Wilson Figueiredo chamou de “exame sociológico de fezes”. 

Com voz bonita, redonda como o dono, Bueno de Rivera foi também locutor da Rádio Mineira, em cujas ondas lançou um bordão que o fez famoso na cidade: “Dançam animadamente na Rua Erê...”. Na verdade, não havia baile algum – o programa, à base de discos, era gerado, de madrugada, no estúdio da emissora. Ideia de outro poeta, Hélio Pellegrino, para promover o romance do amigo comum Cyro dos Anjos, O Amanuense Belmiro, cujo protagonista é morador na Rua Erê. 

Dividido entre a lira e a ganhação da vida, o autor de Pasto de Pedra é lembrado hoje não em um, mas em dois pontos de Belo Horizonte. O Guia, que lhe sobreviveu, registra uma Rua Bueno de Rivera, no bairro Bonsucesso, e uma Radialista Bueno de Rivera, no Céu Azul. Que a ninguém ocorra batizar uma terceira em homenagem ao criador do Exame Sociológico de Fezes.

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