Prosa e memória

Elias Canetti recupera em três volumes trajetória criativa, com destaque para a busca por um lugar na cultura das letras

VINICIUS JATOBÁ, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Após duas décadas disponível apenas em sebos, o exuberante trabalho memorialístico de Elias Canetti (1905- 1994), composto de três livros exemplares, finalmente retorna às livrarias. Prêmio Nobel de 1981, Canetti foi um dos mais notáveis escritores de expressão alemão. Sua obra literária é sui generis: além de algumas peças teatrais, ele escreveu um dos romances mais importantes do século, a exaustiva comédia Auto-de-Fé (1935), disponível no país em uma edição da Cosac Naify. O restante de seu trabalho é sociologia de almanaque - o histérico ensaio Massa e Poder (1960) - e inúmeros livros de ensaios sobre cultura em geral e literatura em particular: seu livro sobre Kafka, Cartas a Felice, é uma obra-prima. De certa forma, Canetti viveu como seu personagem mais notório, o protagonista de Auto-de-Fé, o intelectual Kien: dotado de uma mente brilhante, tornou-se prisioneiro dela. Escreveu pouco, publicou menos, falou demasiado: e suas memórias tornam essa faceta de Canetti evidente.

O legado de Canetti é seu enorme senso de humor involuntário. Retornando ao romance, Kien é um homem da filosofia, do pensamento, viciado em literatura, viciado em consumir as palavras alheias, e que sempre levava consigo um pedaço daquele universo; é o imperador de um reino de papel, e vive cercado de livros. Canetti quis escrever, conforme suas memórias, um livro sobre as coisas mais profundas da existência, naturalmente, mas inventou um dos personagens mais patéticos da rica literatura de expressão alemã: um homem alienado, incapaz de ter uma conversa, que casa com sua governanta por estar mais disponível, e que morre em um incêndio dentro de sua própria biblioteca. Canetti precisou de frondosas 700 páginas para narrar essa história porque ela era demasiado importante; e tinha planos, conforme revela em suas memórias, de que fosse um volume em uma enciclopédia sobre, nada menos, a Humanidade. Não é difícil entender por que Canetti, que poderia ser um dos mais legíveis e contagiantes autores satíricos do século passado, mergulhou em um abismal silêncio. Ele se levava muito a sério; e ao se ombrear, como fica evidente em suas memórias, aos gigantes Musil e Broch, com quem travou amizade, e Mann, ele estabeleceu um parâmetro cujo talento que possuía não lhe possibilitou sustentar.

Há duas maneiras de ler A Língua Absolvida, Uma Luz em Meu Ouvido e O Jogo dos Olhos. A primeira delas, considerar que se está diante do relato de uma mente notável. O que Canetti leu, pensou, analisou; como sua mente analítica se formou; os bastidores de sua mente em ebulição. Essa leitura, no entanto, é soporífera e exaustiva. Canetti dedica as 350 páginas para destrinchar dez anos de sua vida, dos 16 aos 26, o que é verdadeiramente notável considerando que ele provavelmente tinha espinhas naquela época. Da mesma forma que Canetti busca substratos que justifiquem sua genialidade, o leitor também busca. E o que segue é a narrativa de centenas de pormenores que perdem sua graça por causa da maneira como se lê. A outra forma de se aventurar pelo universo das memórias é captando o humorismo exuberante da vaidade de Canetti. O primeiro volume, A Língua Absolvida, é mais aberto e franco - todos comem doces e correm quando crianças -, possivelmente porque Canetti não ganhara ainda seu Nobel: ele era um personagem menor e respeitado dentro da cultura literária, e o livro transpira uma energia menos autoindulgente. Os últimos dois volumes são carregados de ansiedade: uma luta mal disfarçada de estabelecer um novo lugar na cultura literária.

Pelo seu humorismo involuntário, as memórias de Canetti tornam-se as mais exuberantes de todas. Há algo de patético na forma como o jovem Canetti, após publicar seu primeiro livro, se perde entre a competição literária de seu tempo: ele ricocheteia de mestre em mestre pelo simples motivo de que Broch e Musil não se suportam; ele recusa um prefácio de Joyce porque acha que não iria adicionar em nada a seu livro; fica carregado de culpa quando recebe uma carta de Mann uma vez que deve lealdade a Musil. No segundo volume, o caótico levante dos trabalhadores de Viena parece ter ocorrido para que Canetti tivesse ideias para seu Massa e Poder. A prosa de Canetti é um espetáculo: cinzelada e precisa, dotada de uma exatidão cristalina, constrói com ritmo substantivo esse épico de sua mente; no entanto, a distância entre a forma como sua vida é tratada e a importância real dela é que dá o charme aos três livros. De certa forma, longe de restrição, essa maneira de encarar a narrativa que formam justifica porque esses três livros podem ser considerados a maior realização de Canetti. A leitura é um deleite de tão fluida e envolvente, e são livros informativos sobre a História da Europa central; trazem um personagem delirante e sonhador, cuja relação com os livros ninguém consegue identificar ainda que todos entendam o fogo da paixão que o move; e quando Canetti termina seu único romance o leitor comemora com ele, já que equivale na narrativa ao herói conquistar seu objetivo. Insuspeitada narrativa de entretenimento, as memórias de Canetti são leitura gratificante.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.