Prosa de Sábado

No panorama da prosa de ficção nacional, Seara Vermelha (1946), de Jorge Amado, apresenta proposta estética original e é, numa perspectiva de exigência crítica, seu romance mais bem construído e acabado. Escrito após a debacle do Estado Novo, segue as prerrogativas radicais da literatura político-partidária de esquerda, interessada em enaltecer a força dos movimentos sociais primitivos que, se desqualificada politicamente, não se encaixa nas insurreições operárias e socialistas. Para qualificá-la, Jorge burla o cientificismo eurocêntrico. Em 1965, Eric Hobsbawm redesenhará a cena camponesa de Seara Vermelha. Leia-se Rebeldes Primitivos (estudo sobre as formas arcaicas dos movimentos sociais nos século 19 e 20). O romance vem dedicado a, entre outros, Luís Carlos Prestes, "amigo dos camponeses". Seu valor é reconhecido pelo Prêmio Internacional Stalin (1951). Tomada de Engels, a epígrafe sintetiza: "A liberdade é o conhecimento da necessidade".

O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h08

Seara Vermelha mapeia a identidade fragmentada de três dos principais setores rebeldes do mundo camponês brasileiro, a fim de retirar cangaceiros, beatos e soldados da condição de pré-políticos. O mapa programa um upgrade artístico da rebeldia popular, contrário à tradição letrada brasileira e útil ao partido político internacionalista. Sem rede de proteção, Jorge rompe com a herança criminalista positivista, proposta pelo médico psiquiatra Nina Rodrigues e observada por Euclides da Cunha. Os dois emprestaram à rebeldia primitiva a condição de fenômeno psicopatológico. Do primeiro leia-se A Loucura Epidêmica de Canudos (1897), ensaio publicado na Revista Brasileira. Do segundo, os subcapítulos de Os Sertões (1902) que se seguem a Antonio Conselheiro, Documento Vivo de Atavismo. Detecta-se a posteridade de Jorge em análise do universo de Glauber Rocha (em particular, os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e Antonio das Mortes).

O corte epistemológico efetuado por esse romance político é paradoxalmente de fundo estético. Jorge trabalha de maneira inédita o processo de caracterização do personagem de ficção. Esvazia as figuras dramáticas do recheio psicológico (ou psiquiátrico). Arrisca-se a ser julgado superficial por zombar da tradição criminalista positivista e da tradição do romance burguês oitocentista. O narrador de Seara Vermelha não se vale do tratamento psicológico para conduzir os irmãos José, João e Juvêncio para o cangaço, o messianismo e a Polícia Militar. Independentemente da própria vontade e do amadurecimento como homem, cada um encontra seu lugar no mundo.

José, João e Juvêncio tornam-se, respectivamente, jagunço, beato e soldado. O objetivo da vida adulta independe dos traços de caráter afetivo-sentimental que relacionariam a gênese da opção à infância (memória pessoal), à criação familiar (afetos) ou à formação (educação). O desprezo pela análise psicológica dos três irmãos ludibria a decantada diferença entre sujeitos (sentimentos, afinidades, ideais, etc.) e torna pouco problemático o processo político-partidário de afiliação do indivíduo e de união dos bandos rebeldes e divergentes.

Na atualidade cinematográfica, os três rebeldes primitivos correspondem aos "replicantes" do filme Blade Runner. Se interrogados e submetidos ao detector Voight-Kampff do Dops, não emitiriam respostas empáticas. Desmemoriados e convictos, seriam traídos pela íris. Para o contraste, assista-se ao filme O Homem de Mármore, do cineasta polonês Andrzej Wajda, crítico ferrenho da mitificação do herói operário pelo regime soviético.

Como exemplo da despsicologização, tome-se um dos J - Juvêncio. Ele "teria sido cangaceiro se encontrasse Lucas (chefe do bando) na sua ansiosa busca pela caatinga. Se o beato Estêvão já houvesse iniciado sua pregação quando da sua fuga, ele seria talvez um dos seus homens. Mas Juvêncio em vez de encontrar o bando de Lucas, deparou com a estrada de ferro e o apito do trem". Seu destino é selado pelo apito do trem, como o de José e de João o foi pelo encontro com Lucas e com Estêvão. "Entrou para a Polícia Militar quase por acaso". A razão política não conduz os irmãos a buscarem lugar entre jagunços e beatos, ou no engajamento partidário. Não são tampouco psicopatas. São rebeldes por necessidade. Buscam a liberdade. De modo "anárquico", "acaso" e "inconsciência" lhes ditam o norte. De volta ao personagem e ao texto: Juvêncio "nada sabia de política, mas se metia nas discussões no quartel e, por uma inclinação natural, era pelos revoltados contra o governo. Sentia-se contra a ordem estabelecida, mas de maneira inconsciente e anárquica".

Sem "direção justa" e "por sorte", a rebeldia de Juvêncio bate à porta do engajamento político. "Por vezes, na cadeia, Juvêncio pensava no sertão, nos camponeses, em Lucas Arvoredo e em José, seu irmão que acompanhara o jagunço. Fora o mesmo impulso de revolta, a mesma sede de justiça que o arrancara da roça. Apenas ele tivera mais sorte e em vez do grupo de cangaceiros, encontrou o Partido e a direção justa para sua rebeldia."

Romances são considerados úteis à pesquisa nas ciências sociais porque trazem intriga que se lê pelo conhecimento já acumulado por elas. A linguagem artística exemplifica o saber. São considerados menos úteis aos amantes da arte porque não requerem uma reflexão íntima do leitor desejoso de questionar o saber objetivo, já codificado. Útil no processo de amadurecimento da reflexão político-partidária sobre a rebeldia popular, Seara Vermelha funciona como divulgação de ideias sociais revolucionárias. O leitor pouco afeito à discussão complexa da literatura é levado a considerar problemas socioeconômicos pertinentes à sua condição, que não lhe passariam pela cabeça se instruído apenas pela indústria do entretenimento, a que se dobrará o romance de Jorge a partir de Gabriela.

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