Prosa de Sábado

Assim Lygia Fagundes Telles teria intitulado a coluna e, com a verve que lhe foi dada de presente pelos deuses, narrado as vidas paralelas das irmãs Celina, Mary e Elsie, entrelaçando-as ao sabor dos grandes acontecimentos do século 20. São filhas da carioca Arinda de Malta Galdo e do dentista norte-americano James Franck Houston, aclimatado ao Brasil desde 1891. O irmão delas faleceu ainda criança.

O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2012 | 03h11

Celina Houston casa-se com o industrial Nelson Veloso Borges que, logo depois da queda do Estado Novo, recolhe nos anos 1930 a experiência política da Liga Comunista Internacionalista (LCI) e, ao lhe adicionar a crítica ao stalinismo, funda com Mário Pedrosa e Hílcar Leite o jornal trotskista Vanguarda Socialista (1945-1948). Nelson, que assina a seção de Economia, adota o pseudônimo Pirajá e cabe-lhe o financiamento da empresa. Patrícia Galvão (Pagu) se incumbe da crítica literária. Em perspectiva histórica, a intenção política do jornal torna-o precursor do grupo e da revista Socialisme ou Barbarie (1949-1965), de que participam, entre outros, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort.

No editorial de Vanguarda Socialista, salienta-se a proposta original do grupo brasileiro: "Não é um jornal de agitação para a massa; é um jornal de vanguarda. Isso significa que não visa a lançar uma ideia, ou um objetivo exclusivo para uma multidão, e bater e rebater na mesma tecla, até que a massa aja em consequência dessa agitação; queremos lançar muitas ideias, disseminar um corpo de ideias para os indivíduos, os pequenos grupos a fim de que esses, organizando-se e orientando-se por elas, se reúnam e se preparem para uma ação sistemática e esclarecida sobre o que se chama de largas massas".

Mary Houston casa-se com o crítico de artes plásticas e nosso mestre Mário Pedrosa, companheiro do concunhado no Vanguarda Socialista. Pesquisadora independente, Mary trabalha nos anos 1970 com os manuscritos e cartas de James Joyce, depositados na State University of New York em Buffalo. Durante 15 anos, pesquisa os originais de Finnegans Wake, tendo concluído, em 1981, uma das várias edições do romance. Hélio Oiticica, então em Nova York, me falava de suas viagens e trabalho. De Joyce Mary traduz e publica Cartas a Nora Barnacle (Massao Ohno, 1988), missivas onde "até nas próprias letras" - escreve o amante à mulher amada - "há qualquer coisa de obsceno e de libidinoso". Pena que o livro esteja esgotado.

Em carta a Nora, datada de dezembro de 1909, lemos: "Vou dar-te também de presente um livro encantador e é um presente do poeta para a mulher amada. Mas, lado a lado e no âmago deste amor espiritual que tenho por ti há também um desejo bestial e bruto por todos os pedacinhos de teu corpo, todas as partes secretas e vergonhosas dele, pelos cheiros todos dele e por tudo que ele faz". Das cartas à futura esposa não se excluem as confissões autobiográficas: "Como poderia gostar da ideia de lar? Meu lar era simplesmente um negócio de classe média arruinado por hábitos perdulários que eu herdei. Minha mãe, creio, foi morta aos poucos pelo mau trato de meu pai, por anos de tribulação e pela franqueza cínica de minha conduta. Ao olhar para o rosto dela quando posta no caixão - rosto cinzento devastado pelo câncer - tive consciência de estar olhando para o rosto de uma vítima e amaldiçoei o regime que fizera dela uma vítima".

Elsie, cantora lírica e musicóloga, casou-se em primeiras núpcias com o surrealista francês Benjamin Péret. Ao lado de Bidu Sayão, foi das primeiras intérpretes internacionais de Villa-Lobos, Jaime Ovalle e do repertório popular brasileiro. Em 2003, por ocasião do centenário de nascimento e dos 60 anos de sua morte prematura e trágica em Nova York, Emanoel Araujo e Grégoire Villanova se uniram para homenageá-la e publicar, com o patrocínio do Grupo Takano, A Feminilidade do Canto. Desde então, a plaqueta é duplamente preciosa. O texto vem acompanhado de CD, onde se reproduzem 14 gravações (as originais estão em 78 rotações).

Elsie era sensível ao desequilíbrio etnomusical que está no cerne do Modernismo brasileiro. Capital na sua formação foi o encontro em 1924, na cidade de Buenos Aires, com a soprano francesa Ninon Vallin, que se esmerava na interpretação de canções em quíchua e aimará, recolhidas no Equador, Bolívia e Peru por Marguerite Béclart d'Harcourt e por ela harmonizadas. Em abril de 1923, Marguerite as tinha apresentado com sucesso no teatro Vieux Colombier. Em 1925, de volta ao Brasil, Elsie estreita as relações com Mário de Andrade e de novo parte. Agora para Paris, onde conhece a mestra Béclart d'Harcourt. Depois de se apresentar em casa dela, retoma a carreira de intérprete lírica, com concerto na Salle Gaveau. Sem se distanciar do canto, Elsie segue os passos de Marguerite e, com o marido Péret, faz pesquisa em etnomusicologia no Brasil. O resultado é o livro Chants Populaires du Brésil (Fondation Musée Guimet, 1930).

O livro é composto por melodias populares em que a influência africana é dominante, como em emboladas, cocos, lundus, ou nos pontos de macumba. Seguem-se os gêneros de origem ibérica, como a cantiga de desafio e a modinha, e por fim os cantos indígenas. Poucos estes. Daí ter sido a musicóloga arguta observadora do desequilíbrio no estado da arte no Brasil: "Parece inverossímil que nenhum músico culto tenha percorrido as regiões habitadas pelos índios brasileiros a fim de recolher sua poranduba musical. Estou convencida de que aquele ou aquela que o fizesse nos surpreenderia com suas revelações. Os únicos exemplares de música indígena pura que chegaram até nós são os três cantos recolhidos por Roquette Pinto durante sua excursão entre os índios de Mato Grosso, na missão do General Rondon".

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