Propriedades medicinais das frutas brasileiras

"Coma goiaba", diz o jornalista Afonso Capelas Jr., em meio à redação da revista National Geographic Brasil, ao me ouvir pedir duas Coca-Colas para tratar uma pequena dor de barriga, semana passada. Eu poderia ter levado a mal o comentário. Meu humor já não estava aquelas coisas. A frase traz um quê de "Vá pentear macaco", convenhamos, e ele, a rigor, nada tinha a ver com a história. Mas imaginava as boas intenções do amigo. Desconfiava da sua resposta, inclusive, mas por via das dúvidas, perguntei: "Por quê?" "Prende", garantiu Afonso. Era a conclusão que eu imaginava.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2011 | 00h00

Sou fascinado pelo papel das frutas na medicina popular brasileira, desde que vim para cá pela primeira vez na década de 1970, ainda em Mato Grosso (Dourados). A qualquer movimento intestinal inesperado no Brasil surge, de imediato, uma solução de quem estiver por perto, mas sobretudo das mães e das mulheres, à base de frutas e, por vezes, sucos. As receitas variam conforme os sintomas e a disponibilidade dos "fármacos". Mas são divididas em duas categorias básicas: 1) as frutas que prendem o intestino; 2) e as que têm o efeito contrário, ou seja, soltam-no.

Há controvérsias, mas são menores do que o consenso. Maçã prende. Pera, também. Mamão solta, tal como ameixa. Até aí não tem o que discutir. Todos concordam também que a laranja-pera solta. Mas existe algum debate em torno dos efeitos da laranja-lima, por exemplo. Limão, surpreendentemente, prende.

Sei de tudo isso com base em pesquisas próprias. Não, não testo as frutas pessoalmente, nem em ratos. O que me interessa é a cultura, o conhecimento acumulado. No dia em que Afonso me mandou comer goiaba, aproveitei para perguntar à revisora Marta Magnani, sentada ao lado, que outras frutas "prendem". Ela recomendou, de bate-pronto, a banana-maçã. (A nanica ou a prata não têm o mesmo efeito, concordam todos.)

Pergunto de cada fruta sempre que aparece a oportunidade. Se estiver em uma festa e encontrar alguém chupando uma uva, por exemplo, pergunto: "Uva prende?" Não é preciso dizer mais do que isso. Qualquer brasileiro sabe do que se trata. E até onde consigo perceber, ao menos, o assunto nunca é impróprio. Se você estiver em uma recepção no palácio de Buckingham, no casamento do século, por exemplo, pode perguntar ao brasileiro que estiver a seu lado sobre os efeitos do kiwi no aparelho digestivo sem constrangimento, ao menos em português. A resposta virá rapidamente e sem ironia. A utilidade pública da informação supera qualquer desconforto em discutir o funcionamento do intestino humano em público.

Nunca abordei a questão em inglês. Para dizer a verdade, acho a tradução da antinomia "prende ou solta" difícil na minha língua mãe. É uma coisa brasileira, quiçá uma estrutura da cultura, tal como o "cru e o cozido" para o lendário antropólogo Claude Lévi-Strauss. Mas há algum conhecimento sobre o assunto nos Estados Unidos. Ameixa solta, não há dúvida quanto a isso. Existe, ainda, um consenso sobre as propriedades contrárias da maçã. Mas até onde sei, é só. De um modo geral, as frutas não são receitadas para o descontrole intestinal nos Estados Unidos. Goiabas, jamais.

Eu trato quase tudo com Coca-Cola. Considero-a um santo remédio. De um modo geral, o americano tende a apelar para remédios químicos mesmo, como "pepto bismol", em líquido cor de rosa, ou outros, mais fortes, receitados pelo doutor. Lá, diria (talvez) o saudoso filósofo Michel Foucault, o "discurso médico-científico" se impôs à episteme anterior.

No Brasil, o discurso tradicional coexiste ao lado do receituário médico. Como afirma o antropólogo e cronista colega do Caderno 2, Roberto DaMatta, aqui as épocas históricas não se sucedem hegelianamente, uma à outra. Acumulam-se. Essa qualidade cultural estimula, creio, soluções inesperadas e contribui para a alegria do improviso.

E já que estamos no assunto, nunca esqueço a primeira vez que meu pai me visitou no Brasil. Foi por ocasião do nascimento do meu filho primogênito, Lucas, portanto mais de 26 anos atrás e na época do Natal. Fazia calor. Muito calor. Lembro-me disso. Levei-o à feira da Rua Mourato Coelho na Vila Madalena, sábado de manhã. Garry, como ele se chama, encantou-se com o movimento, o burburinho, as pessoas e com o colorido do evento. Mas gostou mesmo foi das mangas. Desde que vivera, adolescente, no Havaí, antes mesmo de Obama nascer lá, nunca mais havia degustado manga para valer. Lucas nasceu em 1984, antes, portanto, da grande globalização culinária. Havia algumas mangas nos mercados da Califórnia na época, onde morava e mora meu pai, mas segundo ele eram secas e pequenas e fibrosas, nada como aquelas havaianas que experimentara na adolescência. Ele comprou mangas em quantidade, com destaque para aquelas chamadas de "coração de boi". Levei também. Era Natal, afinal. Ficam bonitas na mesa do jantar.

Quando vi meu pai, algumas horas mais tarde, estava verde que nem essa última camisa do Palmeiras. Passava mal, mas muito mal mesmo. Segundo minha mãe, ele havia se esbaldado nas mangas. Ela não tinha ideia de quantas chupara, mas o número era alto.

Moral da estória: manga solta.

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