Proposta de uma clínica sem sujeito

A medicalização do espaço social e o controle dos indivíduos estariam na base do projeto político que sustentaria a obra

Joel Birman, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

O Livro Negro da Psicanálise é um livro-acontecimento, como foi denominado pela revista Le Nouvel Observateur, logo após o lançamento da obra na França, em 2005. Isso porque ele foi o disparador de inúmeras polêmicas, que incidiram não apenas no campo psicanalítico, mas também na representação social da psicanálise. Lida vorazmente, em decorrência da ampla disseminação midiática, a obra já estava na terceira reimpressão no mês de seu lançamento.

Mas, se o dossiê do Le Nouvel Observateur - "Deve-se acabar com a psicanálise?" - era favorável ao livro, o do L"Express o criticava. Inúmeros artigos saíram em jornais e revistas de grande circulação, sem considerar as especializadas. Com isso, os analistas tiveram que sair de seus nichos institucionais e vir a público para responderem às críticas.

A fim de destacar as linhas de força do debate, é preciso destacar a inflexão simbólica condensada no título da obra, como enfatizou Elisabeth Roudinesco. Com efeito, inscreveu-se na obra sobre a psicanálise a carga simbólica de um livro anterior, intitulado O Livro Negro e que foi publicado em 1995, constituído pelos testemunhos dos que sobreviveram aos campos de concentração. Como pontuou Jean Birbaum, no Monde des Livres, a expressão "livro negro" remete para o crime de massa. Não esqueçamos, ainda, que a obra se insere numa série de livros publicados na França contendo a expressão "livro negro" no título: O Livro Negro do Comunismo (1997), O Livro Negro do Colonialismo (2003) e O Livro Negro da Revolução Francesa (2008). Na inflação do significante "livro negro", a psicanálise se inscreveria no que existiria de pior: do gulag ao horror colonial, passando pelo terror da Revolução Francesa.

No campo psicanalítico, a obra em questão suscitou a publicação de dois livros-resposta. Assim, se E. Roudinesco publicou em 2005 Pourquoi Tant de Haine? Anatomie du Livre noir de la Psychanalyse, J.A. Miller publicou L"Anti-Livre Noir de la Psychanalyse, em 2006.

O que eles salientaram foi não apenas a virulência que impregnava o Livro Negro da Psicanálise, mas também o seu contraponto, qual seja, a ausência de uma argumentação consistente que pudesse fundamentar a crítica severa. Vale dizer, os argumentos foram considerados frágeis.

A obra em pauta é, na verdade, o ponto de chegada de um debate que atravessa a França sobre a hegemonia da psicanálise em relação ao campo dos saberes psi. Essa perda de hegemonia já ocorreu antes nos EUA, na Inglaterra e em vários países europeus. Contudo, desde os anos 90, a posição estratégica da psicanálise na França foi colocada em questão pela disseminação dos paradigmas das neurociências e das psicoterapias cognitivas e comportamentais.

É nesse contexto que precisamos inscrever esta obra e o debate que suscitou. Por ser o ponto de chegada de um longo debate sobre a hegemonia da psicanálise é que a quinta parte do livro se intitula Existe Vida Depois de Freud, na qual diferentes artigos dissertam sobre os novos paradigmas. Pode-se afirmar que estaria aqui o que disparou a organização do volume. Após a demolição do campo psicanalítico, o que se quer apresentar são as novas alternativas para o domínio do campo psi, mas que estariam já colocados no ponto de partida. Enfim, a circularidade da construção da obra é evidente.

Como foi sistematizada a crítica em questão? Se examinarmos a construção das diferentes partes que compõem o livro, podemos depreender que o que está em pauta é a desconstrução do paradigma freudo-lacaniano e não os que se encontram presentes em outras tradições psicanalíticas. Por isso mesmo, a primeira parte visa a desconstrução do discurso freudiano e a segunda tem no discurso lacaniano o seu alvo. Com efeito, antes de indicar os supostos impasses epistemológicos da psicanálise, na sua terceira parte, a obra precisa demolir os fundamentos da psicanálise. Por este viés, os ditos impasses epistemológicos já delineiam a psicanálise como condenada à morte, de modo que suas "vítimas" podem ser apresentadas na quarta parte. A fim de não existirem mais vítimas do "holocausto" promovido pela psicanálise, os novos paradigmas do campo psi são apresentados triunfalmente na quinta parte, indicando que pode existir "vida sem Freud".

Assim, nas duas primeiras partes estariam o núcleo da obra. O que se destaca é que Freud foi não apenas um "bom contador de histórias" sobre "a eficácia terapêutica" da psicanálise, mentirosas claro, mas também que soube fazer publicidade de seu discurso e construir uma organização poderosa, sem a qual a disseminação de suas ideias teria sido impossível. A mesma estratégia seria usada pela tradição lacaniana. O inconsciente seria uma modalidade de conceito do tipo faz-tudo, de modo a proteger a psicanálise das críticas e evitar expô-la ao confronto decisivo para a verificação da sua cientificidade.

Porém, nessas alternativas, o que se coloca em pauta são práticas clínicas, em que o sujeito estaria ausente, conforme se nota nas propostas enunciadas pelo DSM-III e pelo DSM-IV (manuais de diagnósticos e estatísticas de transtornos mentais da Associação Norte-Americana de Psiquiatria). A medicalização do espaço social ultrapassaria todos os limiares até agora atingidos, desde o século 19, inscrevendo no horizonte da contemporaneidade a psiquiatrização dos normais. Os esboços do DSM-V indicam isso claramente, dando conta de que a nova classificação vai radicalizar mais ainda o que foi já estabelecido pelos códigos diagnósticos anteriores.

Eis o projeto político que está em curso na crítica da psicanálise promovida pelo Livro Negro..., no qual a performance do indivíduo seria o alvo estabelecido pelos novos paradigmas, com a anulação definitiva do sujeito e a promoção do controle social dos indivíduos. Se é para isso que se quer banir a psicanálise, é preciso que nos indaguemos se vale a pena queimá-la. Da minha parte, proponho que resistamos de todas as formas possíveis.

JOEL BIRMAN É PSICANALISTA, PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UFRJ E PROFESSOR ADJUNTO DO INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA UERJ

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