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Propaganda eleitoral gratuita

O protesto, na sexta-feira, reunia turistas e nova-iorquinos na porta do hotel Plaza. A tarde de temperatura alta convidava a passar mais tempo ao ar livre. A polícia colocou cercas de metal para manter o acesso à escada da porta. Um homem que anunciava aulas de tiro e parecia doente mental, gritava: “Eu amo Trump”. Mas não tinha companhia. O cartaz de um manifestante dizia: “Trump – Vanilla ISIS” – um trocadilho com o nome do rapper branco Vanilla Ice, usando uma das abreviações que designam o grupo terrorista Estado Islâmico.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

14 de dezembro de 2015 | 02h00

Mas Donald Trump preferiu não sair pela porta principal do hotel que foi uma de suas propriedades, de 1988 a 1995. Lá dentro, republicanos da Pensilvânia eram anfitriões de um almoço para arrecadar fundos e resistiram a apelos para desconvidar Trump para falar no evento.

Conversei com um jovem universitário e ele quase se desculpou em nome de seu país. Disse que o candidato representa uma minoria. Um estrangeiro haveria de concluir o oposto ao desembarcar aqui. A associação de Trump ao Estado Islâmico não é piada sarcástica. Depois que ele propôs banir a entrada de qualquer muçulmano nos Estados Unidos – inclusive cidadãos americanos voltando de viagem –, várias figuras públicas o acusaram de ser uma peça de propaganda ideal para os terroristas recrutarem adeptos. No dia seguinte ao discurso, Trump apareceu nos principais programas matinais americanos.

Deixemos de lado a covardia da liderança do Partido Republicano, que há seis meses torce para uma providencial casca de banana tirar Donald Trump do páreo, enquanto ele sobe nas pesquisas. Depois de dois mandatos de um presidente do Partido Democrata, a Casa Branca parecia uma conquista acessível até que um elenco numeroso de candidatos fracos foi ofuscado pelo palhaço para quem a mídia americana faz propaganda grátis. O senador Lindsey Graham, um dos candidatos que não tem chance de se eleger, expressou sua frustração com candura inesperada: Trump está na frente, disse, porque 40 por cento dos republicanos que votam nas primárias eleitorais acham que Barack Obama nasceu no Quênia e é muçulmano.

O senador está certo em apontar o barulho feito por ume minoria enamorada de Trump, mas a mídia americana não pode ser absolvida da cumplicidade com o circo que começou no saguão – onde mais? – do edifício Trump na Quinta Avenida. Ao anunciar a candidatura, Trump chamou os mexicanos de ladrões e estupradores. De junho para cá, foi ladeira abaixo.

Duvido que, se o jornalismo tradicional não estivesse numa posição tão defensiva, dizimado pela revolução digital, um extremista como Donald Trump seria convidado com a mesma frequência para entrevistas, ou melhor, solilóquios no ar. Praticar jornalismo é fazer escolhas e um grupo da elite na mídia – os editores e produtores que decidem o que cobrir – escolheu ceder tempo e espaço maior a Donald Trump para atrair audiência.

Quando criticados, alguns deles invocam a liberdade de expressão, numa hipocrisia notável. Fizeram uma troca faustiana e o estrago está consumado. Um subproduto da mídia digital é a falta de filtro editorial e a propagação de mentiras como fato. Trump compreende isso e usa jornalistas que lhe fazem perguntas como se ele merecesse ser levado a sério. Pela primeira vez na história eleitoral americana, um candidato líder nas pesquisas aparece no ar com um lunático como Alex Jones, um sujeito cujo programa diário defende teorias conspiratórias do tipo o homem nunca foi à Lua e o 11 de Setembro foi obra do governo.

Em poucos dias, mais de meio milhão de pessoas assinaram uma petição online para barrar a entrada de Trump na Grã-Bretanha. Quem sabe quantos assinariam uma petição pelo divórcio entre a mídia e Donald Trump. 

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