Prometheus, fogo grego na dança dos orixás

Cia Balagan reproduz encantamento da mitologia

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h08

O espetáculo Prometheus - A Tragédia do Fogo reproduz com encantamento o caráter labiríntico da mitologia grega. Pede-se voo de imaginação no emaranhado de personagens e acontecimentos dessa religião politeísta da Grécia antiga (estamos voltando 3 mil anos no tempo). O texto resulta de citações esparsas e trechos de inúmeros autores desde o historiador Hesíodo ao trágico Ésquilo. No resumo e centro da ação está Prometeu um dos habitantes do Olimpo, a "morada dos deuses", organizada de forma hierárquica sob o comando Zeus. O Pai Eterno, maravilhoso e tirânico, atribui a Prometeu e ao seu irmão Epimeteu a tarefa de criarem o homem e os animais, mas, em seguida, é tomado de fúria quando Prometeu concede o uso do fogo, logo da vida, à Humanidade. Decide acorrentá-lo ao Cáucaso, a cordilheira entre o mar Negro e Cáspio, para uma águia monstruosa devorar-lhe o fígado por milênios sem conta.

Há várias interpretações para a ocorrência e por elas passam antropologia, história da formação dos povos e das religiões, literatura e a psicanálise. Com tais variantes à disposição, a encenadora Maria Thais, o dramaturgo Leonardo Moreira e os intérpretes da Cia Teatro Balagan construíram um espetáculo brilhante de enredos multifacetados, contraditórios, lacunas, tramas paralelas e entrelaçadas. Fantasia com ritmos e musicalidade abstratos e um tênue fio condutor. Porque se for para estudar mitologia grega com erudição e racionalidade, há, entre outras fontes, a obra do brasileiro Junito Brandão ou os comentários precisos da História das Religiões, do italiano Maurílio Adriani.

A proposta da Balagan é, porém, jogo dos búzios - você sabe o que é? - em que o cerebral e o emotivo se casam na morada dos orixás. Um ato de justiça cultural porque se as cosmogonias se assemelham, não há, porém, igualdade segundo o poder e a mentalidade de quem olha (político, militar, cultural). Em outras palavras: se mitologia grega branco-europeia é uma joia do Ocidente, o mesmíssimo universo, mas no contexto africano, pode ser rotulado de subcultura de negro "macumbeiro". Ou seja, Casa Grande e Senzala em escala universal.

Prometheus termina lindamente com uma dança de candomblé. O espetáculo tem sido acompanhado de um ciclo de estudos sobre mitos, cultura grega e religiosidade, mas, estranhamente, não se previu uma palestra sobre as crenças afro-brasileiras com um especialista do nível do sociólogo Reginaldo Prandi, hoje um dos principais estudiosos do candomblé. Autor de Mitologia dos Orixás e Segredos Guardados - Orixás na Alma Brasileira (Cia. das Letras), Prandi é professor da Universidade de São Paulo como, antes, Roger Bastide, que escreveu As Religiões Africanas no Brasil.

A criação do Balagan mostra um Olimpo agitado por paixões idênticas às dos humanos e, logo, o avesso do diáfano Céu do catolicismo; a culpa judaico-cristã não mora ali. A cena é tomada por seres coléricos envoltos em disputadas internas ou determinando castigos e vinganças. Zeus (Oxalá?), o pai de todos, envia aos homens a fascinante e temível Pandora (Iansã?), aquela que detém a caixa onde estão guardados todos os males. Pandora, como Eva bíblica, a serpente e o fruto do conhecimento, a perdição de Adão favorece extensa gama de visões e uma das mais plausíveis tem conotação sexual.

A caixa seria o instrumento de sedução de Pandora, o que é dito aqui aos gritos e pelo nome vulgar do órgão sexual feminino. Não soa bem, é provocação rude, algo como "feminismo" deslocado. O mito nesse instante perde força em meio a tanta sofisticação artística. Felizmente, apenas um ruído passageiro numa celebração com trechos em grego, língua musical, e na qual os intérpretes demonstram preparo corporal e senso coreográfico e o palco - grande invenção cenográfica de Márcio Medina - pode ser dividido por cortinas (ou "caixas" de representação) que realçam detalhes do fluxo narrativo. A larga epopeia é, assim, pontuada por odes tensas ou sonhadoras.

No elenco arrebatado desponta o talento, imponência e beleza de voz de Gisele Petty (Pandora). Com esse conjunto de acertos, Maria Thaís e a Cia Balagan enriquecem ainda mais a já vigorosa programação do Teatro da USP (Tusp) e fazem de Prometheus uma das belezas da temporada.

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