Prometheus e a invenção de Alien

Para este filme, diretor diz que fortaleceu ideias do longa de 1979

LUIZ CARLOS MERTEN / LONDRES, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2012 | 03h11

Ridley Scott nunca gastou tanto dinheiro em sua carreira, mas estava sereno ao conversar com a reportagem, na capital inglesa, sobre Prometheus. Durante muito tempo se falou no retorno do diretor a seu filme mítico, Alien - O Oitavo Passageiro, de 1979. O próprio título, Scott reconhece, é simbólico. Prometheus, o herói mitológico, roubou o fogo de Zeus para dá-lo aos homens e foi punido pelo deus. Prometheus, o filme, parece que vai responder ao enigma de Alien e lança novas perguntas. O filme promete mais que cumpre, mas impressiona, principalmente pelo visual. Prometheus é uma aposta grande da distribuidora Fox. Deve estrear com mais de 500 cópias, muitas em 3D.

Por que voltar a Alien, 33 anos depois?

De todas as minhas criações, Alien foi a que mais se instalou no imaginário coletivo. Concebi-o como um personagem aterrador, uma encarnação da psicose e, embora lisonjeado com a popularidade que alcançou, nunca me senti muito confortável com as sequências nem com os filmes da outra franquia, quando Alien enfrenta o predador. Há algum tempo comecei a conversar com a Fox, propondo uma retomada da série. A conversa era no rumo de uma sequência, mas quando comecei a trabalhar seriamente no projeto percebi que teria de tomar o caminho inverso. Saiu uma prequel.

E por que esse formato?

Por que o filme nasce da indagação. Se estava insatisfeito com os rumos de Alien, precisava voltar à origem. Quem é ele? Todas as culturas ancestrais manifestam o temor e a reverência perante o desconhecido. Na trama do filme, Noomi Rapace (Elizabeth Shaw) acredita que os signos que encontra em diferentes culturas apontam para um convite. O homem está sendo chamado para ir às estrelas. Ela organiza uma expedição em busca de repostas. Encontra o desconhecido.

Erik Von Däniken escreveu um monte de livros sobre os deuses astronautas. Foi uma influência?

Ninguém o levava a sério, do ponto de vista científico, mas suas indagações eram legítimas e muitas hipóteses que levantou permanecem sem respostas e não podem ser descartadas. Parte disso veio para o filme, sim.

O que descobriu sobre Alien no retorno à origem?

Fortaleci ideias que já estavam no filme de 1979. Ele representa nossos medos mais profundos e, nesse sentido, tem de ser estressante. Insisto sempre nas cenas de nascimento do alienígena justamente por isso - para explicitar o horror.

No primeiro filme, ele nascia do ventre do homem. Aqui, do ventre do homem das estrelas. Por que a fixação?

É o aspecto mais intrigante e não vou lhe dar nenhuma resposta específica. Tem a ver com a construção dramática dos filmes como unidades de espaço e tempo. Mas digamos que, obviamente, há aí uma crítica ao machismo, num sentido amplo. O poder do falus, Tanatos, Marte, a guerra.

É por isso que você gosta tanto de heroínas feministas? Sigourney Weaver em Alien, Noomi Rapace em Prometheus...

Fiz diversos filmes com e sobre mulheres fortes e a explicação é simples. Meu pai era militar, vivia viajando. Meus irmãos e eu fomos criados por nossa mãe e ela tem sido o protótipo feminino, não só do meu cinema, mas da minha vida. Era dominadora sem perder a ternura. Não precisava gritar nem bater em nós. Bastava um olhar. Mas não creio que homem nenhum possa bater no peito e dizer - sou feminista. Carregamos a nostalgia de nossas funções ancestrais. O homem como provedor, a mulher como mantenedora da espécie. Mas, sim, em definitivo as mulheres fortes me atraem, em especial na ficção.

Por que Noomi Rapace?

Era uma atriz com quem queria trabalhar há tempos, mas não encontrava o papel certo. É frágil e forte, possui uma beleza particular. E eu precisava de uma atriz com olhar humano, para que o público acreditasse na honestidade de sua busca.

O filme tem muita ação, mas à maneira de Stanley Kubrick, em 2001, carrega indagações filosóficas sobre o significado da existência. Como veio isso?

O roteiro foi concebido dessa maneira. Foi escrito em oito meses, o que me parece um prazo curto, considerando-se a amplitude do projeto. Mas não pensava - vou fazer o meu 2001. Seria muita presunção, mesmo que Alien e Blade Runner sejam consideradas duas das ficções científicas mais influentes já feitas.

O que o gênero tem de tão atraente?

É a possibilidade de projetar, como fantasia, questões que são relevantes sobre o nosso presente e futuro. A ficção científica é um campo muito amplo - existem os autores que viajam na imaginação, os que se mantêm dentro das possibilidades reais da ciência e os que buscam extrapolar as indagações.

Em que ponto você se situa?

Sou visionário. Gosto de criar mundos, é a minha paixão.

A contribuição de H. R. Giger é fundamental. Você tem outra equipe técnica e artística, mas o conceito de Alien segue sendo dele. Por quê?

Tenho plena consciência de que o sucesso de Alien e da série toda deve muito a Giger. Tive sorte ao encontrá-lo, mas foi difícil persuadir o estúdio (a Fox) a aceitar seus desenhos. Eles os consideravam obscenos, e era, mas isso agrega ao mistério e ao terror do humanoide. Quando vi o Necromicon de Giger senti uma vertigem, um estremecimento. Não conseguia nem explicar porque aquilo mexia comigo, mas pensei - é isso! Na época, não tinha muito dinheiro e fizemos várias tentativas. Filmamos um protótipo minúsculo em imagem reduzida, ampliamos para 35 mm, gravamos em vídeo e jogamos na tela da TV. Mas aquilo foi só a base, a fundação. Em cima joguei a direção de arte, a fotografia, os efeitos, como aqui. Para Prometheus retomamos desenhos originais de Giger. A atmosfera continua dele.

Você filmou na Islândia, construiu sets gigantescos. Noomi disse que achava que ia representar contra um fundo verde e estava tudo lá. Por quê?

Porque é mais barato. A pós-produção encarece muito, mas claro, não foi só por isso. Num filme de terror, que explora o medo, é bom que os atores se sintam ameaçados para que o espectador acredite neles.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

JJJJ ÓTIMO

JJ REGULAR

Prometheus, de Ridley Scott, é um diálogo com sua própria obra - de Alien a Blade Runner, mas também com o Kubrick de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Reencontra, dessa forma, a vertente, digamos assim, mais nobre da ficção científica, a de servir como instrumento de especulação filosófica sobre a origem da vida.

Mas não sejamos tão solenes. Se esta foi a inspiração inicial de Scott, ela pode ter tropeçado em vários problemas que fazem de Prometheus mais um filme mediano, apesar de grandioso.

Sim, é impossível não se impressionar com as imagens em 3D, em especial se você for vê-lo num bom cinema e, de preferência, com tecnologia Imax, que nos dá a impressão de estarmos "dentro do filme". Pelo menos é o que eles desejam - transformar a experiência de ir à sala algo irrepetível na reprodução doméstica, por sofisticada que seja.

Nessas condições ideais que teremos oportunidade de fruir as sequências iniciais, com um ser humanoide, à beira de fantasmagórica cascata, que se deixa desintegrar como meio de espalhar seu material genético e dar origem à vida terrena. Deixa rastos desse ato inicial. É atrás dessas pistas que vai partir a expedição de Prometheus, composta pelo androide David (Michael Fassbender, espelho do personagem de Rutger Hauer em Blade Runner), a frígida executiva Meredith (Charlize Theron) e a heroica expedicionária Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), entre outros.

Deixando de lado as referência externas mais explícitas, o que temos é a expedição Prometheus partindo em busca dos mistérios do universo e da própria vida, atividades mais nobres do cérebro humano. No entanto, esse projeto corporativo (a iniciativa é de um trilionário) esconde outros interesses e complica um bocado as coisas, mas não a ponto de comprometer o idealismo investigativo de Elizabeth, a heroína da história.

O que compromete, não a expedição Prometheus, mas o próprio projeto do filme é a tentativa de popularizá-lo pelo diálogo com o cinema de gênero mais rasteiro. Em algumas passagens, as cenas de horror são interessantes, envolventes e quase insuportáveis, como uma estranha cesariana autoimposta à bordo da nave. Outras beiram o humor involuntário. Scott é presa, muitas vezes, de sua obsessão pela violação do corpo próprio, a ponto de fazer desse elemento a base de todo o seu terror. Repete-se. Desse modo, a aventura intelectual emagrece, em proveito das cenas de ação, que encorpam. O diálogo com 2001 não chega a ponto de levar Scott aos impasses finais de Kubrick. Há distância intergaláctica entre os dois cineastas.

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