Projetos ressaltam a força da viola caipira

Músicos Cláudio Lacerda e Ricardo Vignini mostram o valor da cultura da roça

Agencia Estado

12 de junho de 2007 | 03h47

Todo ano é a mesma história. Por aqui,caipira só tem vez quando chega mês de junho - e como caricaturaem quermesses, nas quais, invariavelmente se ouvem as mesmasmúsicas. Só que tem boa gente da cidade que faz questão de tiraro chapéu pros matutos, contribuindo para enriquecer o repertórioe driblar os clichês do jeca dos tempos de Mazzaropi. Um deles éo cantor Cláudio Lacerda, paulistano de alma caipira, como deixaexplícito no título de seu segundo CD, que acaba de ser lançado.Outro é seu conterrâneo, o violeiro Ricardo Vignini, do grupoMatuto Moderno, curador do projeto O Brasil Caboclo de CornélioPires, que nesta terça-feira, 5, no Centro Cultural Banco do Brasil reunindo shows de duplas caipiras históricas como muitas queele incentivou. Ambos, como diz Vignini, atravessam bastante "essa pontede ser urbano e tocar música de raiz". Os trabalhos dos doisaqui em foco são como visões de um universo poético que ficou namemória. "Parece uma fotografia", diz Vignini. "O tipo de músicade raiz, puro, bruto, vai acabar mesmo. Por exemplo, o Cruz, quetoca nos Favoritos do Catira, tem um monte de música que fala decarreiro porque viveu a vida toda com carro de boi. Mas quemconhece carro de boi hoje?", questiona Vignini. "Então é umacoisa meio complicada. Além disso, muitos desses caras sãosemi-analfabetos, e têm um jeito de fazer rimas que quando umcara novo quer imitar soa falso." "Sou paulistano, mas acho que o Brasil tem, sim, motivopra se assoberbar da cultura que vem da roça", defende CláudioLacerda. "Nossa cultura é muito legal, é muito rica e é difícilde entrar aqui. O que a gente quis era mostrar isso de uma formaque atingisse o público de São Paulo. Foi uma homenagem, mas éum produto mais focado para um pessoal de cidade grande, quegosta, que curte, e tem um pouco mais de consciência que é umacoisa legal, que as músicas eram legais."Preciosidades Ele está falando de Alma Caipira, seu novo e primorosotrabalho, projeto em parceria com o jornalista Luiz André doPrado, que conta com colaborações precisas de Cris Aflalo, PenaBranca, Tetê e Alzira Espíndola, Kátya Teixeira e Lula Barbosa,entre outros. Produzido de forma independente, como nos temposde Cornélio Pires, o álbum desenha um exemplar panorama da modacaipira, ao som de viola, cantada em solos e duplas. Sãopreciosidades ocultas de grandes compositores do gênero, comoElpídio dos Santos, João Pacífico, Raul Torres e Mário Zan,entre outros. Lacerda mostra um significativo painel de ritmos(como o batuque, a moda de viola, o cururu e a guarânia) e temas(desde o aspecto humorístico até o religioso, incluindo casos deamor entre pares e pela natureza). Dois dos compositores eleitos em seu CD estão ligados aum protótipo que fez o homem do interior se ressentir: o jeca.Mas Lacerda mostra o outro lado deles e da cultura querepresentam. Angelino de Oliveira (1888-1964), de Itaporanga,compôs Tristeza do Jeca, "mas também era um seresteiro,violinista, violonista". Elpídio dos Santos (1909-1970), de SãoLuís do Paraitinga, fez as músicas dos filmes de Mazzaropi e"tem um repertório de super bom gosto em termos melódicos, eleera maestro". "As pessoas caricaturam antes de conhecer otrabalho. Foi essa idéia, por isso a gente não quis pegar ossucessos", diz Lacerda. Ele também musicou (com Sérgio Penna) umpoema de Cornélio Pires (O Pobre e o Rico) e incluiu norepertório um tema do braço direito de Pires, Capitão Furtado(O Mundo Daqui a 100 Anos, parceria com Palmeira).Viola caipira A viola caipira tem ganhado novos adeptos, não só namúsica do interior, e continua a soar em bons CDs. Um deles éClássicos da Moda de Viola, de João Mulato e Douradinho,vencedor do último Prêmio TIM, como melhor álbum regional - umasurra de chicote nas duplas breganejas famosas. O CD abre comHerói sem Medalha (Sulino), que Lacerda também gravou. Outroregistro de valor é o instrumental Solos de Viola Caipira porÍndio Cachoeira, produzido por Ricardo Vignini. João Mulato eÍndio Cachoeira estão no elenco de atrações do projeto do CCBB.Como lembra Vignini, "a viola caipira, nos últimos 15 anos, temse mostrado o instrumento de cordas que mais cresce no Brasil",ganhou os centros urbanos, as salas de concerto e foi "abraçadaaté por bandas de rock". Já nos anos 40 Cornélio Pires reclamava que os meios decomunicação, como o rádio e o telefone, tinham tirado o encantoda roça. Hoje com o sertão globalizado, os interioranos dançamnos rodeios ao som de axé, bandas pop de comercial derefrigerante e sertanejo estridente, influenciado pelo countryamericano. "Acredito que com o tempo isso começou a mudar. Háduas semanas, na Virada Cultural em Araraquara, tinha umamolecada nova dançando enquanto a gente tocava Tião Carreiro,coisa que não acontecia há seis anos. Era mesmo muito essa ondado country, que não é nem country aquilo, é um nada...", observaVignini. "Hoje a gente chega para fazer shows no interior, todomundo que gosta de sertanejo também gosta da música caipira. Masnão consome, é muito diferente", diz Lacerda. "E também nãoconhecem a fundo. As novas gerações já não têm mais contato como caipira, já nasceram no meio sertanejo, no interior ou aqui emSão Paulo. Então é quase uma obrigação minha fazer esse trabalhopara não perder o elo."

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