Projeto vai recuperar igreja mineira do século 18

Renascer das cinzas é expressão perfeita para a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, das mais antigas de Mariana, tombada, mas destruída pelo fogo há exatos dois anos. Um projeto revolucionário anunciado esta semana promete levantar até o fim do ano tudo o que estava lá desde 1784. E ainda multiplicar o que havia, com um florescimento cultural digno de atrair turistas do Brasil e do exterior. Nas mãos de uma agitadora cultural mineira de peso, Maria Alice Martins, a igreja restaurada vai abrigar concertos permanentes, como sempre se fez na Europa. As partituras dos concertos, acervo musical riquíssimo do barroco mineiro, foram encontradas por Maria Alice na Cúria Metropolitana de Mariana, minadas pelas traças e pelo extravio. Elas serão recuperadas, digitalizadas e interpretadas por uma orquestra profissional criada pelo mesmo projeto. Que também será responsável por uma oficina de formação de jovens músicos locais. Dela sairá uma ou várias orquestras barrocas especializadas no repertório setecentista e oitocentista da música mineira, com instrumentos de época. Serão 12 concertos, um por mês, a partir de dezembro, gravados em CDs colocados numa caixa com o nome dos patrocinadores para suas empresas distribuírem como brinde no final do ano. É o milagre da multiplicação dos peixes nascido literalmente das cinzas. "Em 92, quando dirigi o Centro Cultural do Sesi em Mariana, nunca encontrei essa igreja de portas abertas, a não ser para as celebrações", reclama Maria Alice. "A igreja sempre foi o palco de expressão cultural da comunidade, por que se fechou agora no Brasil? Talvez pelo empobrecimento cultural dos próprios religiosos, que no século 18 viajavam, estudavam música e literatura, falavam línguas." O Brasil chegou tarde, mas chegou. É hora de mudar. "A casa de Deus não serve só para abrigar os fiéis, mas para se tornar uma galeria de arte como a Capela Sistina. La Serva Padrona foi escrita por Pergolese em 1733 a pedido de um padre, para entreter os fiéis com uma ópera cômica nos intervalos de 45 minutos das missas de sete horas de duração." Maria Alice pergunta: "Espaço restaurado é espaço vivo?" E ela mesma responde: "Claro que é, ou o dinheiro investido não terá valido a pena." São R$ 4 milhões doados pelos patrocinadores. A alavanca foi a Samarco, segunda empresa de mineração do mundo, estabelecida em Mariana, primeira a se preocupar com a restauração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. "Ofereci ao dr. Penido, presidente da Samarco, não o marketing cultural, mas a engenharia cultural -- pensar na utilização dos espaços antes da reconstrução", diz Maria Alice. "Ou iríamos cair naquela história que me causa indignação: reconstruir, gastar dinheiro público e em dois anos a obra fica ociosa, sem conseguir se auto-sustentar." A igreja de Mariana será mantida pelo dinheiro dos turistas. Zona histórica de mineração, Mariana está farta de ver a espoliação de suas minas sem receber nada em troca. Hoje, depois da iniciativa da Samarco, a Vale do Rio Doce e a Samitre se sentem obrigadas a participar e a devolver em cultura o que lucraram em Mariana. "Só de entrar num mineroduto dessas empresas a gente se sente como naquele filme A Incrível Mulher Que Encolheu. Tudo isso foi gerado aqui, não foi?" Diretora de vários centros culturais em Minas e ex-gerente da Federação de Indústrias de Minas Gerais - que ela transformou numa federação cultural - Maria Alice Martins é responsável hoje pelo Centro Cultural Yves Alves de Tiradentes. Depois que ela instituiu os seminários, atraindo de Amir Klink ao príncipe Joãozinho de Orleans e Bragança, passando por Ana Miranda e Adélia Prado, Tiradentes tornou-se a segunda cidade de turismo mineira, depois de Ouro Preto. "A terceira, logo, será Mariana", ela promete. Dá para acreditar. O anúncio do projeto esta semana foi feito na Igreja de São Francisco, colada à de Nossa Senhora do Carmo, com orquestra regida pelo maestro Segio Lúcio Alves ao som de um dos ícones do barroco mineiro. Um conjunto formado de cravo, violoncelo e um quarteto vocal interpretou a vibrante Ladainha em Fá Maior, composta em torno de 1700 por José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita. "Como esta, há muitas pérolas a serem restauradas", garante o maestro. Dom Luciano está à frente do projeto, lembrando a vocação musical natural de Mariana e o grande viveiro de compositores que foi a Minas do período do ouro. "Essa memória não pertence o um país, pertence ao mundo", acrescenta Maria Alice.

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