Projeto simpático, mas frágil

Os males urbanos estão em cinco histórias superficiais que não conseguem despertar emoção

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h11

A princípio, o projeto de Circular parece criativo e simpático. Cinco jovens, todos alunos da FAP - Escola Superior de Cinema e TV, de Curitiba, já com experiência em curtas, resolvem unir forças e fazer um longa. Cinco histórias, mas que, para não ficarem desarticuladas, se mesclam em algum lugar do tempo e espaço. No fundo, é o formato do multiplot, que apareceu décadas atrás como grande novidade (não era), e depois se desgastou pelo excesso de uso e falta de imaginação.

A má fama recente dos multiplots vem por conta de tramas mal ajambradas e sem sentido. Virou fórmula e já não comove pela aparente novidade. É preciso dar-lhes um centro, senão parece mais artificial do que já é, com seus personagens entrando na história dos outros. Nos anos 60 e 70 andaram na moda os filmes do episódios, com alguma aproximação temática e nada além dela a ligá-los. Ótimos longas como Rogopag e Bocaccio 70 se originaram daí. Não era preciso fingir que faziam um todo porque não era assim. Em Circular, uma das providências para conferir essa falsa unidade foi entregar a direção de fotografia ao veterano Carlos Ebert. Mas a decisão mostra-se insuficiente. Certo, as tramas falam de males urbanos, mas isso é muito vago para dar algum liga a cinco vontades e estilos diferentes.

O filme até que começa bem com a história do estrangeiro que, aparentemente, tem de resolver o caso de sequestro do próprio filho. Carlos (o ótimo ator uruguaio Cesar Troncoso, de O Banheiro do Papa) marca encontro com o sequestrador dentro de um ônibus, para reaver o filho. No mesmo ônibus está o pastor Samuel (Marcel Szymanski), com problemas com a filha pequena, que sente falta da mãe. Na viagem estão alguns componentes de uma banda punk chamada Gengivas Podres, veja só. E também a professora de arte Cristina (Letícia Sabatella), que utiliza medicamentos em suas obras e, para não perder a viagem, faz uso deles. O cobrador do veículo é Lourival (Santos Chagas), boxeador nas horas vagas e deslocado para essa linha para substituir um colega.

Cada um desses personagens puxa uma história particular, e elas são bem irregulares. Talvez a de Carlos seja a melhor, mas estiola-se à medida que se desenvolve. A do pastor Samuel é superficial, assim como a do trocador/boxeur Lourival. A de Cristina é inconsistente, com uma personagem que poderia ser mais crível se não se entregasse a discursos edificantes sobre a função da arte. O episódio dos punks, com seu farto exercício de escatologia, é apenas lamentável.

No todo, o filme é fraco. Em momento algum conseguimos nos envolver com os dramas daquelas pessoas, porque eles se desenvolvem de maneira artificial. Com exceção, como já se disse, de alguns momentos do episódio de Carlos, o que tem o filho sequestrado, e cuja força se deve ao ator, acima de tudo. Há um ou outro momento de bom cinema, mas são raros. O projeto se perde na fatura cinematográfica insuficiente. Fragilidades que se escondem num curta de iniciantes se amplificam num longa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.