Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Projeto privilegia seleções amplas e exibição de trajetórias individuais

Bienal de São Paulo apresenta uma generosa investigação da produção artística contemporânea

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h08

Com menos artistas e mais obras do que a edição anterior do evento, a 30.ª Bienal de São Paulo apresenta ao público uma generosa investigação acerca da produção artística contemporânea. Ao todo foram selecionados 111 autores, das mais diferentes origens e trajetórias, que comparecem com cerca de 3 mil trabalhos. Esse adensamento, que foge do modelo de bienais de uma só obra por autor, não só permite conhecer melhor as trajetórias individuais, como também contribui para iluminar a existência de uma trama de ricas relações entre as diferentes poéticas aí representadas e a presença marcante de questões, como o acúmulo, a repetição e ordenação nessa produção mais recente.

A exposição se estrutura de forma tentacular, sem núcleos definidos de forma categórica. Os segmentos criados pela curadoria - com títulos como Vozes, Derivas e Sobrevivências, tão abertos como o próprio nome dado à Bienal, A Iminência das Poéticas - têm apenas uma função estruturadora subjacente à potência das imagens, deixando o espectador livre para estabelecer suas próprias conexões.

O projeto arquitetônico muito sutil, de autoria de Martin Corullon, contribui para explicitar a existência desses diálogos, dando grande leveza ao conjunto.

Este ano não haverá, como ocorre tradicionalmente, uma obra de grandes proporções ocupando a área vazia no vão central. O espaço ganha ritmo e leveza por meio da sutil intervenção do argelino Olivier Nottellet. Usando suas cores habituais (preto e amarelo "ou mais do que branco, como dizia Mondrian"), ele diz querer pontuar as linhas sinuosas das rampas, redesenhando, assim, o espaço em toda a sua monumentalidade.

Radicalizando a ruptura com os modelos de Bienal estabelecidos no século passado, o projeto desenvolvido pelo curador Luis Pérez-Oramas não apenas abole compartimentações, como as representações nacionais e as salas especiais dedicadas a artistas consagrados. Também procura anular as hierarquias históricas e geopolíticas entre os artistas representados. Quase metade dos selecionados são latino-americanos, incluindo aí os 23 brasileiros convidados. Estes, por sua vez, estão, em sua grande maioria, na Bienal pela primeira vez.

As mais diferentes formas de expressão artística estão representadas e mescladas: pintura, instalação, performance, fotografia... Esta última, inclusive, ocupa de forma majoritária e um tanto subversiva o espaço climatizado do terceiro andar, onde está uma das grandes atrações do evento, o gigantesco esforço de registro da fisionomia da sociedade alemã por August Sander (1876-1964) ao longo de quase cinco décadas.

A obsessão com a catalogação, registro e ordenação da diversidade é identificada por Oramas como uma característica central da arte contemporânea e constitui um dos mais fortes eixos da exposição. Isso não quer dizer, felizmente, que o espectador terá diante de si anotações herméticas, arquivos e mapotecas que já se tornaram comuns em eventos do gênero.

O trabalho instalado logo na entrada do pavilhão, de autoria do canadense Guy Maddin, joga com esse anseio nunca plenamente realizável de criação de sistemas de linguagens totalizantes. Em telas de diferentes dimensões são projetados filmes mudos criados pelo artista, de grande beleza e intangibilidade.

Muitos outros trabalhos presentes partem dessa relação arquivística com o mundo, como, por exemplo, Hans-Peter Feldmann, com suas reclassificações fascinantes de imagens e objetos, ou Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), cujo núcleo funciona como uma espécie de centro nervoso da Bienal.

Dentre os aspectos poéticos contidos na obra de Bispo, que reverberam ao longo de todo o pavilhão, está, evidentemente, a questão da insanidade. "A loucura muitas vezes é a exacerbação da inteligência", afirma o curador, procurando demonstrar que a estigmatização de artistas como Bispo e Horst Ademeit (1937-2010) - que também exorcizava seus temores fazendo registros fotográficos diários de seu ambiente - deve ser colocada em questão. A fronteira entre normalidade e loucura, muitas vezes imposta pela sociedade como uma estratégia de autopreservação, parece mais tênue quando se vê como são amplos e ricos os processos de criação artística. A intuição é, segundo o curador, uma palavra proscrita, mas fundamental.

Outras questões que seguramente passam por Bispo e serpenteiam pela mostra são a inter-relação entre texto e imagem - vide o magistral alfabeto composto por mais de 400 pictogramas de Frédéric Bruly Bouabré - e a força poética da linha.

Linha que se expressa não apenas na forma do desenho que se constrói no plano e no espaço, como na obra de Gego - figura fundamental da arte venezuelana -, mas na feitura do bordado, técnica explorada com recorrência, por artistas como o brasileiro f.marquespenteado e as norte-americanas Elaine Reichek e Sheila Ricks. Enquanto a primeira lida com o mito de Ariadne e reconstrói suas obras a partir da colagem de imagens míticas e históricas, a segunda explora uma relação sinestésica com o mundo, tecendo pequenos tapetes geométricos e cromáticos (Minimes) ou criando tramas sedutoras a partir da manipulação de tecidos variados, dando forma à "inteligência das mãos", lição fundamental aprendida com os índios latino-americanos em tour pelo continente ainda nos anos 1960.

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