Projeto mapeia a dramaturgia paulista

A opção pelo título no plural explica em grande parte o objetivo do Programa Dramaturgias, que começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil. Serão cinco encontros bimestrais, com a finalidade de tecer um panorama das principais categorias de criação dramatúrgica constantes na cena paulistana, a partir dos anos 90. A cada encontro será lida a peça (ou trechos de peças) de um autor representativo da dramaturgia contemporânea, de Luís Alberto de Abreu a Fernando Bonassi, com debate na seqüência. A primeira peça do projeto, que tem curadoria do dramaturgo Aimar Labaki e coordenação de Neusa Andrade, é Confiança, da dramaturga Beatriz Gonçalves, com os atores Clara Carvalho (Prêmio Shell 2001) e Marco Ricca, sob a direção de Regina Galdino."Confiança é um drama sobre o reencontro de um casal cinco anos depois da separação. Fala sobre amor, cumplicidade e confiança em si e no outro", referenda Bia Gonçalves, autora dos textos premiados Lili Scholem (1.º Concurso de Dramaturgia do Sesi/95) e Playmobil (Festival Curta Teatro de Sorocaba). Neste primeiro encontro, o foco está no teatro de autor, categoria que assegura um teatro galvanizado pelas ferramentas básicas da dramaturgia (enredo, personagens e diálogo). Bia Gonçalves vai relatar sua experiência como membro do Núcleo dos Dez (coordenado por Luís Alberto de Abreu, entre 95 e 98), de investigação dramatúrgica, e de sua participação no programa de Residência Internacional do Royal Court Theatre em Londres, o mais importante centro mundial de criação dramatúrgica.Para a diretora Regina Galdino, o teatro de autor está visível nesse texto na forma e no conteúdo. "O texto tem escrita contemporânea, com um ritmo muito grande. As repetições das ações dos personagens tira o texto do cotidiano mais banal", salienta.Dramaturgo e curador do programa, Aimar Labaki ressalta a importância dos cinco encontros, "que pretendem discutir as linhas mestras de pensamento e prática da dramaturgia, e levantar o que está sendo produzido pelos grupos e dramaturgos seguidores dessas linhas". O segundo encontro vai alicerçar os fundamentos da dramaturgia de autores não ligados a grupos, que optaram pelas temáticas urbanas e ganharam uma reflexão crítica do meio acadêmico. Será representado pela peça No Retrovisor, de Marcelo Rubens Paiva, com direção da pesquisadora e professora da USP, Silvana Garcia."É natural esse boom na dramaturgia contemporânea, depois de um período - os anos 80 - em que a investigação teatral privilegiou a visualidade, a exploração de fronteiras como a dança-teatro e uma dramaturgia que deslocava o lugar dominante que o texto sempre ocupou na tradição moderna ocidental", diz a pesquisadora."Por outro lado, há uma banalização da escritura, que não é necessariamente um defeito, aliada a uma necessidade expressiva própria da época. Produz-se muito, sem a pretensão de se chegar a obras definitivas ou de porte; são, antes, exercícios de escrita que vão diretamente para a cena", explica Silvana, curadora da coleção de dramaturgia contemporânea, cujo primeiro volume (Geração 90) será lançado pelo Idart do Centro Cultural São Paulo, com peças de Aimar Labaki, Fernando Bonassi, Mário Bortolotto, Cláudia Schapira e Samir Yazbek.Arte e ciência - No terceiro encontro, optou-se por discutir a dramaturgia que dialoga com outros campos do conhecimento, como a ciência. Será lido o texto inédito do autor espanhol José Sanches Sinistierra, Perdida nos Apalaches, com a direção de Oswaldo Mendes e leitura do ator Carlos Palma (ambos atores da peça Copenhagen). As quartas e quintas linhas correspondem, respectivamente, à dramaturgia épica e ao processo colaborativo de criação dramatúrgica. No primeiro caso, toma a frente a Cia. do Latão, de Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano. Será lido trecho de texto inédito do grupo que assina as montagens de O Nome do Sujeito, A Comédia do Trabalho e Auto dos Bons Tratos (que estréia em abril, em São Paulo). O processo colaborativo será representado pelo Teatro da Vertigem, de Antônio Araújo, cujos espetáculos Paraíso Perdido, O Livro de Jó e Apocalipse 1,11 foram criados sobre esse eixo, com a participação de diretor, autor e atores."Na busca da sociedade contemporânea por um certo equilíbrio entre o racional e o irracional, a figura do dramaturgo começa a ser revalorizada", atesta Labaki, autor de Vermouth, A Boa, Motor Boy e Pirata na Linha. Essa fertilidade na criação dramatúrgica deve prosseguir na edição de um segundo ciclo. "Não pudemos contemplar todas as categorias neste primeiro programa, que vai até novembro. Há outras linhas importantes, como a dramaturgia com formas de expressão do jovem (peças da diretora Georgette Fadel) e a dramaturgia que dialoga com a literatura, a exemplo da trilogia pós-moderna de Alcides Nogueira", ressalta Labaki.Programa Dramaturgias. Hoje, "Confiança". De Beatriz Gonçalves. Direção Regina Galdino. 29/5. "No Retrovisor". De Marcelo Rubens Paiva. Direção Silvana Garcia; 31/7. "Perdida nos Apalaches". De José Sanchis Sinistierra. Tradução Cristiane Jatahy. Direção Oswaldo Mendes; 25/9. Texto em processo da Companhia do Latão. Direção Sérgio Carvalho e Márcio Marciano; 27/11. Trechos de "Paraíso Perdido", "O Livro de Jó" e "Apocalipse 1,11", de Sérgio de Carvalho, Luís Alberto de Abreu e Fernando Bonassi, respectivamente. Direção Antônio Araújo. Às 18h30. Distribuição de senhas 30 minutos antes do evento. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651.

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