Projeto Luar leva a dança para a Itália

Há 11 anos Rita Serpa resolveu deixar sua vida de bailarina profissional para fazer algo que ela mesma considerou "uma coisa de gente doida": largar tudo e dedicar-se a um projeto social - ensinar a dança para pessoas carentes. Rita passou a freqüentar os bairros da Baixada Fluminense - um cinturão que cerca a cidade do Rio -, que possui uma população estimada em 4 milhões de habitantes, marcada por altos índices de violência. O local escolhido para dar início às aulas foi o fundo de uma igreja no bairro do Jardim Primavera, em Duque de Caxias. "Não sabia se iria ficar, mas queria fazer algo pelas crianças e adolescentes que estavam ali. Começamos com uma turma de 20, naquela época era apenas um projeto. Hoje, o Luar conta com mais de 700 meninos e meninas, estamos até na Itália," comenta Rita."Quando as crianças começaram a chegar e a fazer aulas, decidi não sair mais dali. Estudei como manter o projeto, como fazê-lo crescer e, ao mesmo tempo, estava me desdobrando para atender a todos que chegavam", lembra-se. O projeto progrediu recebeu o nome de Luar e começou a tomar forma.Para dar continuidade às suas idéias, Rita preparou alunos de dança para se tornarem professores. "Aqueles que se destacavam começaram a ensinar os mais novos, sempre com a minha supervisão. Não fazemos diferença entre as crianças. Os que têm interesse em dançar participam, tendo jeito ou não. Assim, conseguimos democratizar nosso funcionamento.""O Deco é um exemplo, começou comigo, aprendeu, se desenvolveu e hoje está na Itália coordenando meninos do grupo lá." Uma parte do projeto Luar está na Itália para ensinar a maneira de fazer arte e auxiliar na educação de pessoas carentes. "No ano passado, um padre franciscano, dom Franco, veio ao Brasil para conhecer o projeto e a companhia. Ele gostou do resultado e resolveu fazer um intercâmbio entre brasileiros e italianos. Levou os meninos brasileiros para a Europa e um grupo de lá veio ao País." Além das trocas, foi encomendada à companhia a criação de uma coreografia.O roteiro foi definido por dom Franco - o extermínio de crianças na América Latina. "Apesar de ser extremamente difícil é um assunto que está presente em todo o mundo e nosso desafio foi criar um trabalho acessível, com uma linguagem abrangente", observa. Após meses de ensaios e discussões, surgiu O Grito de Raquel, com trilha sonora em tupi-guarani. Uma peça que aborda a situação de risco em que vivem tantos meninos e meninas em todo o País. "Para completar, pedi um texto ao escritor Eduardo Galeano, que comentou a situação dos meninos de rua na Colômbia.""Dom Franco ´importou´ nossa proposta, pretende organizar uma escola nos moldes da nossa, porque há muitos imigrantes em Roma, que ficam à margem, além de sofrerem com os preconceitos e todas as dificuldades inerentes à vida em uma terra estrangeira."

Agencia Estado,

29 de agosto de 2001 | 21h00

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