Projeto liga o morro à cultura contemporânea

Durante dez meses, 600 crianças do Morro da Mangueira, na zona norte, participaram de oficinas de arte e cultura, aprenderam música, teatro e dança - numa iniciativa organizada por educadores e artistas, para mantê-las afastadas do tráfico de drogas e ocupadas. Bem ocupadas, nas palavras da coordenadora do Núcleo de Cultura Nação Mangueirense, Sueli de Lima. Nesse período, o jornalista Alexandre Medeiros e o fotógrafo Vantoen Pereira Júnior acompanharam o trabalho do Núcleo Nação Mangueirense, abrigado no Ciep de mesmo nome. Eles registraram a história de talentos descobertos, de sonhos adiados e de erros e acertos no livro Na Sala de Aula do Mundo, lançado este mês. Visão crítica - A intenção do Núcleo de Cultura Nação Mangueirense, patrocinado pela empresa Xerox, era fazer com que os jovens da favela tivessem uma visão crítica sobre a realidade que os cerca. "Crianças pobres estão alheias ao processo de produção de cultura, ao debate. Elas precisam ter argumentos para explicar por que o É o Tchan é ruim", afirmou Sueli. A missão de Medeiros era a de registrar o encontro desses jovens com a cultura contemporânea. E Na Sala de Aula do Mundo coleciona histórias marcantes desses encontros. Casos como o do menino Domingos Felipe de Oliveira, que em março mal sabia dedilhar o cavaquinho e na semana passada já estava ensaiando um solo de Baden Powell. Ou o de Igor Thiago de Souza, que vestiu uma túnica cor de abóbora durante um workshop do diretor teatral Amir Haddad e saiu da quadra do Ciep direto para os ensaios do grupo Tá na Rua. Medeiros relata com especial carinho a visita ao Museu de Arte Contemporânea (MAC), organizado por Oscar Niemeyer, em Niterói. As obras expostas no MAC - que ficou conhecido entre os estudantes como "etezóide", por causa do formato semelhante ao de um disco voador -, fez despertar o aluno Paulo Luís Rodrigues de Oliveira Júnior. Libertação - Inspirado num quadro multicolorido, ele desenhou um homem aprisionado num cubo de gelo. A partir de então, o garoto de voz quase inaudível passou a ser visto no pátio da escola, correndo com os outros meninos, jogando bola. "A libertação do que esse menino tinha aprisionado dentro dele já valeu o projeto inteiro", sintetizou Amir Haddad. O livro Na Sala de Aula do Mundo, que teve projeto gráfico de Vera Lopes, Vera Bernardes e Maurício Stal, é dividido em três partes. Cada uma enfoca um tipo de linguagem explorada nas oficinas: corporal, musical e visual. O livro - cuja ilustração da capa é de alunas do curso de aproveitamento de papel - foi impresso na fábrica de livros da Xerox, por um processo de impressão digital, sem fotolito.

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