Projeto estético ainda privilegia apenas o exercício de estilo

Uma lanchonete especializada em hambúrguer onde os funcionários são enquadrados na impessoalidade de robôs; a família suburbana petrificada na rotina até que um crime acontece; uma sala de segurança de uma empresa que também pode ser um presídio. Três enredos, de aproximadamente 45 minutos cada um, formam Tríptico, do grupo Club Noir, dirigido por Roberto Alvim. É possível assistir às peças isoladamente, mas o conjunto pretende ser o painel da desesperançada condição humana na atualidade. O dramaturgo norte-americano Richard Maxwell procura dizer que tudo vai mal à vida das pessoas, sem apontar diretamente os motivos ou localizá-los com precisão. A crítica social passa por uma espécie de desolação cósmica em um mundo de trevas pré Fiat Lux do velho Testamento. Maxwell acende o pálido néon do Burger King e anuncia o fim de jogo. Nenhum Godot virá.

Análise: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2010 | 00h00

Os textos, um deles significativamente intitulado O Fim da Realidade, receberam na montagem paulistana um extremado tratamento anti- ilusionista e antipsicologizante. Estamos diante de metáforas visuais que evitam até o encanto dos rostos humanos ao vivo, os olhares. Dispensam a poderosa máscara dramática da atriz Juliana Galdino, usando mais sua maestria vocal, o que também acontece com os demais bons intérpretes. As cenas são em negativo, escuras e emolduras por claridade lateral ou de fundo. Caso se busque referência externa se chegará à pintura surrealista ou aos quadros de Hooper e, muito, às histórias em quadrinhos. O Club Noir leva seu nome ao limite no projeto estético que privilegia o exercício de estilo. O conteúdo da obra, nesse caso, passa ao segundo plano diante da forma, quando o público precisa decifrar contornos na obscuridade do palco.

Recortes com vozes. Pode-se argumentar que é, exatamente, um meio de se reforçar um texto, mas ele se esfria em jogos verbais sincopados, sem nuances, enigmáticos, mas previsíveis a partir de determinado momento. Instaura-se assim a primazia do game eletrônico ou graphic novel. Geometria humana com falas brancas, gritos súbitos e apagões da cena. Em seguida, tudo recomeça. O elenco tem impecável domínio da verbalização que vai da linearidade do canto gregoriano aos estampidos verbais. É engenhoso, tem maestria, mas o abstrato perde o mistério presente, por exemplo, na aridez de Beckett ou Kafka. A engrenagem cênica substitui a dimensão metafísica e política. A encenação se sobrepõe ao "pesadelo refrigerado", expressão do escritor Henry Miller ao reencontrar a América depois de anos de Europa. É contraditório porque temos o espetáculo sólido, mas não o que o programa de Tríptico oferece como "aspectos terríveis da contemporaneidade" com "personagens e situações que, em tons monótonos e inabaláveis desdramatizam e desconstroem nossa suposta normalidade, expondo claustrofóbicos mecanismos sociais de controle". Esses elementos estão parcialmente em cena, mas sem provocar uma revelação maior. Talvez valha a pena tomar cuidado com a monotonia de Maxwell ou de qualquer outro. Mesmo assim, algo vibra internamente no espetáculo. As inquietações de Roberto Alvim, Juliana Galdino e companheiros insinuam que estão atrás de "estranha beleza" para desequilibrar o teatro previsível. Não custa sonhar que ela venha com mais claridade. Nos seus cinco anos, o Club Noir tem caminhado em meio às tentações da vanguarda como mera atitude. Vale a pena acompanhá-lo.

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