Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Projeto da igreja inspira criação de ONG que torna visíveis pessoas em situação de rua

Ao lado de um colega, Vinícius Lima passou a dar rosto e nome para histórias de cidadãos ignorados

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2021 | 05h00

Nascido numa família de classe média com profundas raízes religiosas, Vinícius Lima, de 25 anos, jornalista e cofundador da ONG SP Invisível, começou a sua atuação social por volta dos 11 anos. “Eu cresci na igreja evangélica, a Igreja Batista da Água Branca, e lá eu participava de projetos sociais, de missões na Fundação Casa e na Cracolândia, visitando jovens que eram privados da sua liberdade. Isso ao mesmo tempo que eu frequentava uma escola privada, com adolescentes que tinham recursos. Cresci nesse contraste”, lembra. “Quando surgia incidente comum, um furto de celular, por exemplo, e eu escutava pessoas chamando esses jovens de trombadinha, noia e tal, eu lembro, desde adolescente, de contrapor isso, de gerar uma discussão.”

Foi aí que surgiu nele a vontade de contar histórias e dar exposição pública a nomes e rostos de pessoas marginalizadas, o que deu origem ao perfil do Instagram @spinvisivel – hoje com 297 mil seguidores. Ali, ele dá visibilidade a histórias de pessoas em situação de rua da cidade – e, muitas vezes, acaba conseguindo formas de ajudá-las. Como, por exemplo, com a ação Natal Invisível.

Apesar de, para muitos, a festa ser sinônimo de fartura, essa não é a realidade de todos. A ONG SP Invisível, criada por Vinícius em parceria com seu colega André Soler, cita 116 milhões de brasileiros em situaçao de insegurança alimentar. “Vamos ter uma ceia presencial no (Espaço Sociocultural) Cisarte e depois ceias itinerantes nas praças de São Paulo, com um caminhão que levará comida e diversão. Paralelamente a isso, tudo que for arrecadado a mais será colocado em um banco de alimentos para ajudar outros projetos de combate à fome”, explica. “O Natal foi uma das nossas primeiras ações. Desde 2016, fazemos todo ano, mas essa vai ser a maior, pois serão três projetos ao mesmo tempo”, conta. 

COMEÇO. A criação da ONG surgiu depois de uma exposição proposta pelo pastor Joabe Santos. Nela, cada adolescente da igreja deveria “mostrar a vida real, aquilo que ninguém vê, que era invisível” em forma de foto. “Foi algo muito pessoal. Teve gente que levou fotos de situação de prostituição, de tráfico de drogas, de metrô lotado. O que foi unanimidade, porém, foram pessoas dormindo na rua”, conta Vinícius.

Conversando com seu amigo André, que também participou da exposição, eles perceberam que “invisível” não era a pessoa que estava ali, mas sim a sua história. “Aí pensamos: ‘e se contássemos essas histórias?’. E o SP Invisível começou com os dois saindo pelas ruas, sentando no chão, ouvindo e tirando uma foto desse pessoal”, diz.

O poder de mobilização das pessoas nas redes sociais serviu de motivação para que os amigos seguissem trabalhando. “Era uma mãe que via a história de uma outra mãe na rua e jogava no grupo de mães para ajudar. Ou uma página de futebol que via a história de um menino que sonhava em ser jogador, e isso ganhava a mídia esportiva. Foi muito por meio da empatia”, conta.

Claro que, nesse processo, algumas histórias marcaram mais do que as outras. Como a do Geraldino, que tinha uma hérnia que o impedia de andar e conseguiu fazer a cirurgia graças à mobilização das redes. “Por seis anos, ele ficou parado no Vale do Anhangabaú, mas a partir da história dele conseguimos chegar a um médico que fez a cirurgia. Foi um longo processo, porque o pós-operatório também teve de ser no hospital, uma vez que ele não tinha casa para voltar. A gente ficou mais de um mês com ele lá e isso vai gerando intimidade”, diz.

A vontade de contar histórias também inspirou sua escolha de carreira: jornalismo. “Comecei a me envolver na comunicação da igreja. Então aprendi a mexer em câmera, a fazer e editar vídeos. Mas eu não sabia o que queria fazer dentro da comunicação. O fato de poder contar uma história, da aproximação com câmera, me interessou muito”, diz.

Segundo ele, a vontade de ajudar teve inspiração em sua mãe, Silmara Jorge Ribeiro Lima. “Ela é aquela pessoa que anda com uma bolacha no carro, uma roupa extra para sempre que aparecer alguém ela ajudar. Sempre vi isso do banco do passageiro.”

OBJETIVO. Há sete anos cuidando da SP Invisível, ele percebeu mudanças na própria atitude durante esse período. “Fui entendendo que, quando chego em um lugar, não sou um salvador. eu não sou alguém que vai resolver aquela situação 100%. Em primeiro lugar, porque aquela pessoa tem uma voz. Além disso, a gente vai se ajudando mutuamente. Não tem como o SP Invisível resolver toda a situação de rua”, lamenta.

Apesar disso, ele afirma levar o problema da cidade como missão de vida. “Se um dia São Paulo zerar o número de pessoas que estão em situação de rua, quero fazer parte desse processo, seja como vereador, secretário, dirigente de ONG, missionário, prefeito, não sei. Mas eu quero estar envolvido.”

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