Projeto cataloga toda a HQ do Brasil

O que para muitos pode significarcoisa de criança, para um professor-doutor da Universidade deSão Paulo (USP) é fonte permanente de estudo: as histórias emquadrinhos. Coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias emQuadrinhos (NPHQ) na USP, Waldomiro Vergueiro, professor daFaculdade de Biblioteconomia, quer instituir o Diretório Geralde HQs no Brasil. Para tanto, vai dar início, em parceria comprofessores e alunos, a um projeto de organização edisponibilização de todos os títulos de quadrinhos já publicados, nacionais ou traduzidos para o português.Até agora, o núcleo tem uma base de 270 títulos catalogados. Aprevisão é de que, quando o NPHQ chegar a 400 títulos, oconteúdo já possa ser pesquisado na Internet, ainda no segundosemestre. O passo seguinte será partir para materiais reunidosem gibitecas e acervos pessoais de colecionadores. O próprioprofessor possui uma expressiva coleção, com pelo menos 15 milrevistas."A princípio, vamos fazer um levantamento de títulos, paradepois registrarmos autores e desenhistas", explica Vergueiro.O banco de dados concentrará informações desde 1905, quando foipublicada a primeira edição da revista Tico-Tico. O exemplarserve de referência por ser considerado pioneiro na linha deHQs. "O Tico-Tico foi muito popular, baseado no modeloeuropeu de revistas para crianças. Tinha quadrinhos, históriasinfantis, contos, curiosidades, desenhos."Antes do lançamento da revista, o Brasil já "flertava" com oscomics por meio de sua imprensa humorística. Segundo ocoordenador do NPHQ, chegou a ser editado em São Paulo um jornalchamado Diabo Coxo, o primeiro ilustrado no País, feito peloitaliano Angelo Agostini. A carreira de Agostini foi pontuadapor passagens em diversos jornais brasileiros, no Império e noperíodo republicano. "Agostini tinha um traçado que seassemelhava muito com o das HQs e, por isso, vários autores oconsideram precursor do gênero", explica. "Inclusive ologotipo da Tico-Tico foi criado por ele."Na década de 30, houve a publicação de um suplemento juvenil nosmoldes norte-americanos, no jornal A Nação. Algum tempodepois, passou a ser vendido separadamente, diante do sucessoque fazia entre as crianças. Suas páginas esboçavam as aventurasde super-heróis, como Flash Gordon e Mandrake. As editoras GloboJuvenil, Ebal e Abril tiveram papel importante no fortalecimentoda indústria de quadrinhos no Brasil.Popularidade - Na linha de nacionais, os gibis de Mauricio deSousa são imbatíveis no quesito popularidade. Mauricio de Sousaidealizou seu primeiro personagem, o Bidu, em 1959, mas arevista Mônica só surgiu mesmo na década de 70. "Sãohistórias que são muito próximas das crianças brasileiras",analisa Vergueiro.Nos anos 90, foi a vez dos anti-heróis, criaturas violentas, comvícios, imperfeitas, no estilo de Wolverine, dos X-Men eO Justiceiro. Na mesma década, surgiram os mangás, comicsjaponeses que fazem sucesso no mundo todo. Com a nova tendência,chegou a febre Pokémon, Dragon Ball e tantos outros, cujosquadrinhos deram origem a desenhos animados - e vice-versa. Hoje, o perfil predominante do leitor de HQs é o jovem, do sexomasculino, entre 13 e 25 anos, que encontra nos super-heróis umaespécie de válvula de escape, para extravasar suaagressividade.Para o professor, falta no Brasil um registro preciso dessematerial histórico, diferentemente do que acontece nos Estados Unidose na Europa. "O crescente interesse por quadrinhos nasuniversidades me surpreende cada vez mais. Recebo uma média decinco a dez e-mails por mês de estudantes que querem desenvolvertrabalhos relacionados ao assunto, mas não encontramorientadores nem material de pesquisa."Fundado em 1990, o NPHQ promove reuniões mensais, nas quais sãodiscutidos textos de comics, atraindo uma média de 20 pessoas.Há ainda grupos de debates virtuais, aberto a qualquerinteressado, por meio do e-mail agaque-l@listas.usp.br. Outrasinformações podem ser obtidas no sitewww.eca.usp.br/nucleos/nphqeca.

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