Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Projetando o futuro

Nova geração de arquitetos tem preocupação com o coletivo, rejeita doutrinas e vê além do neomoderno

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

É um país acostumado a não ter projeto. É o país do puxadinho, todo mundo vive de improviso. O compromisso social acabou.

Pela idade, 29 anos, essas opiniões do arquiteto Ivo Magaldi poderiam parecer radicais, nervosamente antirreformistas. Mas Ivo (assim como seus colegas do ebulitivo escritório 23 Sul, em São Paulo) falam de seus desafios com leveza, não parecem dispostos a assumir o tom político de seus mestres: Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi, André Vainer, Angelo Bucci, Marcos Acayaba, Álvaro Puntoni, Antonio Carlos Barossi, Niemeyer.

"É uma herança, mas nós temos um jeito de pensar as coisas de um jeito não doutrinário", pondera Pedro Saito, de 30 anos, que começou o ano com uma grata surpresa: a conceituada revista Wallpaper o incluiu numa lista de jovens artistas nos quais deveremos ficar de olho nos próximos anos. O motivo do encantamento dos editores da Wallpaper com Saito é um projeto de conclusão de curso que provavelmente nunca tomará forma de edifício - uma estação de metrô na região do Jaguaré que integra um CEU, uma praça e idealiza uma articulação com diversos programas públicos.

Da mesma turma de Pedro na FAU-USP saiu Mariana Vilela, 30 anos, atualmente trabalhando no badalado escritório Herzog & De Meuron, em Basileia, na Suíça. Mariana foi ousada: quando soube que Herzog & De Meuron, ganhadores de um prêmio Pritzker (o "Oscar" da arquitetura), tinham sido contratados para fazer o Teatro de Dança em São Paulo, um projeto de quase R$ 1 bilhão, ela não hesitou e enviou seu portfólio para os suíços.

"Após um longo processo, fui escolhida. Acredito que a possibilidade do contato com outras referências, outras relações entre arquitetura e cidade, as diferentes escalas e dimensões urbanas é muito interessante. Há muito a se fazer em São Paulo, e uma experiência como esta tem muito a contribuir com a minha formação como arquiteta, comprometida com o que se faz no Brasil e no mundo", diz Mariana.  

Trabalhando em elogiados projetos, os jovens sócios do escritório 23 Sul (a latitude de São Paulo, 23 graus ao sul do Equador) também começaram o ano com o pé direito. O 23 Sul foi um dos sete escritórios do mundo selecionados na premiação New Practices New York. O concurso premia a trajetória de práticas arquitetônicas novas. Segundo definição do júri: "Os trabalhos escolhidos se destacam pelas novas tecnologias desenvolvidas e aplicadas nas práticas construtivas, que servem de poderosa ferramenta para alcançar resultados mais humanos, generosos e amigáveis. Apresentam visão contemporânea das realidades e necessidades da sociedade brasileira, predominantemente urbana, com grande qualidade na produção de espaços construídos, no desenho de soluções urbanas (...) e na abordagem de questões de inserção e justiça social."

Essa profissão de fé pelos espaços públicos, no entanto, não turva a visão do pessoal do 23 Sul, nove sócios que se reuniram pela primeira vez há cinco anos, para um trabalho de extensão universitária - uma parceria da FAU com a comunidade da Cohab Raposo Tavares (o esboço do trabalho permitiu a elaboração do centro cultural e o plano diretor do bairro - este último indicado à final do Urban Age Awards 2008). Eles já diagnosticam uma "mudança no jeito de se projetar para a classe média".

Curiosa circunstância une três gerações de arquitetos em São Paulo - o lugar chamado Galpão, na Vila Madalena, que foi bunker, nos anos 70, de Antonio Carlos Barossi, renomado professor da FAU. Nos anos 1990, o local foi habitado pelo escritório Una Arquitetos (Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara, Fernando Viégas), que ganhou notoriedade e hoje é um dos mais importantes do País.

Projeto de Pedro Saito, foto: divulgaçãoNo Galpão da Rua Filipe de Alcaçoba, que é dividido atualmente por Saito e pelo 23 Sul, o legado arquitetônico é transmitido como no famoso gibi de Lee Falk, O Fantasma: o bastão é passado para os novos inquilinos há três gerações. Há uma integração multidisciplinar, com artistas visuais (como a ilustradora Mariana Cohan) dividindo o espaço com os arquitetos. É uma construção única e contínua, sem divisórias. "Esse ambiente permite a troca desimpedida de experiências, erros, acertos, palpites e críticas entre os arquitetos", diz texto do grupo atual.

Característica que parece comum a esses jovens é que eles não satanizam, não idealizam nem negam experiências com as quais não compartilham quase nada. "Herzog & De Meuron não foram arrogantes em seu projeto para o Teatro de Dança. Baixaram a cabeça, pesquisaram, mostraram respeito para com a arquitetura brasileira", diz o arquiteto Luis Pompeo, de 26 anos.

Outro criador contemporâneo que divide opiniões, Ruy Ohtake (em geral acusado de fazer uma arquitetura decorativa), é defendido com ênfase pelo jovem Ivo Magaldi. "É um arquiteto importante, que tentou romper com a escola paulista. A gente pode até achar que não é o tipo de arquitetura que queremos fazer, mas não se pode negar sua importância. É só que a preocupação dele é mais privada, a nossa é mais pública", disse Magaldi.

"Uma das tarefas da arquitetura é dar respostas simples para questões complexas", pondera Pedro Saito. Nessa condição, conceitua, o que entende por arquitetura é muito mais a organização de processos, tempos, ideias e indivíduos, "realizando mediações concretas entre atividades de naturezas distintas e conflituosas, próprias da vida urbana".

Para a geração emergente da nova arquitetura paulistana, há também um dado novo que induz ao otimismo: a circunstância financeira. A geração anos 1990 viveu um período de estagnação financeira. Foi um instante de produção mais teórica. Agora, é hora de arregaçar as mangas.  

NO VENTRE DOS ARQUITETOS

Dois riscos do 23 Sul

Os jovens paulistanos do coletivo arquitetônico 23 Sul desenvolveram o projeto do Terminal de BRT no bairro de Marechal Deodoro, Rio a pedido do escritório Oficina Consultores Associados. O trabalho, de grande arrojo (foto ao lado, à direita), é parte do Plano de Transportes da candidatura do Rio de Janeiro aos Jogos Olímpicos de 2016. O plano do terminal é baseado na implantação de uma rede auxiliar de corredores de ônibus tipo BRT que se conecta à rede de transportes existente. Foi desenvolvido pelo 23 Sul em coautoria com o arquiteto Pedro Saito. Já o projeto do Centro Esportivo em Thiès, no Senegal (foto acima, à esquerda), foi encomendado diretamente por uma ONG de missionários. O estudo, para efetivar-se, busca patrocinadores internacionais. Compõem o conjunto de 2,7 mil metros quadrados uma quadra de futebol, arquibancadas, salas para atividades esportivas diversas e alojamentos temporários. O projeto foi desenvolvido em coautoria com a arquiteta Giovana Moreli Avancini.

QUEM É

MARIANA VILELAMariana Vilela, foto de Carmo Montalvão/divulgação

ARQUITETA PAULISTANA

Nascida em São Paulo, formou-se pela FAU em 2005, foi estagiária do Departamento de Edificações da Prefeitura de SP e atualmente trabalha no escritório suíço Herzog & de Meuron. Destaca o Sesc Pompeia como um dos seus projetos favoritos.

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