Programe-se para os últimos dias da Bienal

Um evento do porte da Bienal de São Paulo sempre é um acontecimento imperdível. As Bienais são também uma ocasião extremamente interessante de se fazer um balanço sobre a produção contemporânea. Neste caso, a linha mestra condutora associa um tema amplo como a noção de arte como terreno de liberdade ao resgate de princípios relacionados à Escola de Frankfurt. Mas, por trás dela, temos uma miscelânea de poéticas, que vão de iniciativas de grande impacto, como as megainstalações da entrada, que se apresentam ao público como se estivessem em vitrines de um grande shopping center (vide o grande fusca colorido que roda como um pião ou o tigre sobre o elefante), até obras que lidam exatamente com a crítica ao consumo e à falta de solidariedade no mundo contemporâneo. As opções são variadas, com grandes momentos individuais e muitos desacertos. Esta Bienal recoloca em pauta o debate sobre as divisões entre categorias como a pintura, o vídeo e a obra tridimensional. A monumentalidade também não é garantia de qualidade, apesar de os representantes dos países com orçamentos mais generosos para eventos do gênero, como a França e a Inglaterra, estarem seguramente na lista das melhores obras. Alguns dos trabalhos mais "imponentes" da mostra não resistem a poucos segundos de observação. É o caso, por exemplo, do chinês Cai Guo Qiang, tão esperado com suas impactantes ações com fogos de artifício e que acabou expondo um enorme pássaro-avião em palha trançada, todo espetado de instrumentos cortantes, que sobrevoa a área central da mostra deixando o visitante no máximo intrigado. Essa mesma obra sintetiza a dificuldade de convivência num mesmo espaço expositivo de ações individuais. Ao armar sua escultura voadora de potentes ventiladores que, além de funcionarem como turbinas de avião e movimentarem pequenas fitas que "voam" nos ares, o artista também criou um incômodo e desnecessário ruído, que interfere, solapa de forma sorrateira a relação do visitante com uma parcela importante dos trabalhos (já que o barulho vaza pelo vão central do prédio, atingindo também o segundo andar). Não se trata apenas de uma consequência inevitável de obras que utilizam o som como matéria-prima. Um exemplo de convivência mais pacífica é o misterioso canto da representante portuguesa, Vera Mantero, que não disputa com os vizinhos e além do mais se justifica como elemento central da obra. O tumulto causado pela obra de Qiang só faz ampliar o efeito impressionante do "sótão" criado pelo inglês Mike Nelson no segundo andar do prédio. Uma vez nele, parece que somos retirados do mundo, que mergulhamos no clima tenso e fascinante digno da melhor literatura britânica. E entre suas principais vítimas estão as pinturas da brasileira Beatriz Milhazes, as fotos do norte-americano Alec Soth ou os desenhos dos lituanos Mindaugas & Gintautas Lukosaitis, um registro fiel e comovente da guerra, no caso aquela travada pela resistência contra a ocupação soviética há meio século atrás. Desenho - Mais do que a pintura - propalada como uma das grandes linguagens colocadas em destaque pela Bienal -, o desenho é que parece ressurgir com intensidade nesta 26.ª edição. O traço, o projeto arquitetônico ou esboço de uma idéia ou momento, comparece com força em trabalhos distintos e de qualidade como os bordados do representante de Noruega Hans Hamid Rasmussen ou do chileno Eugenio Dittborn. Também se encaixam nesse amplo e interessante grupo as maquetes do cubano Carlos Garaicoa e o mural do brasileiro Paulo Climachauska, que refaz com infindáveis contas de subtração o desenho do interior do pavilhão que o abriga. Vídeo - A ala de vídeo também reserva boas surpresas para quem tem algum tempo a dedicar ao assunto, pois a quantidade de obras reunidas nesse núcleo e as durações um tanto longas. É recorrente essa questão do tempo em trabalhos do gênero, já que o desejo de escapar à lógica narrativa e aos truques de edição e montagem característicos do cinema leva os vídeoartistas a darem ênfase ao tempo real. O espectador fica dividido entre o desejo de ver o trabalho por completo (muitas vezes apresentado em looping e sem as informações corretas de duração) e a frustração de abandoná-lo pelo meio. Talvez não por acaso os melhores trabalhos nesse segmento lidem exatamente com essa questão, seja tendo um impacto imediato com o espectador, como a lírica, melancólica e absolutamente poética videoinstalação sobre o carnaval, intitulada Se Fosse Tudo sempre Assim, realizada por Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, seja transformando-o em mote central. Destaca-se neste último grupo a obra do francês de origem armênia, Melik Ohanian, que toma a pulso a questão do tempo na arte visual e a transforma em tema de um dos mais belos trabalhos em vídeo da mostra, uma ação grandiosa que congrega imagens potentes e uma interessante relação sobre o acaso, sobre a relação mítica do homem com o seu ambiente, com as forças - naturais ou não - que o cercam. 26.ª Bienal de São Paulo. Pavilhão da Bienal/Pq. do Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3, Ibirapuera, 5574-5922. 9h/ 22h (6ª, sáb. e dom., até 23h). Serviço de monitoria deve ser solicitado com 3 dias de antecedência pelo fax 5549-0230 ou pelo e-mail monitoria@bienalsaopaulo.org.br. O local possui cadeiras de rodas disponíveis, livraria, loja, tel. público e lanchonete. Não é permitido ingresso com máquinas fotográficas e filmadoras. Grátis. Até domingo

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.