André Dusek/Estadão
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Programas de Governo - Comédia

Chama o Conar: propaganda enganosa à vista, acima de tudo e de todos

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2021 | 03h00

Pesquisadores que quiserem entender o processo eleitoral brasileiro e os anseios do eleitor poderão checar a proposta de governo cada candidato, registrada no Tribunal Superior Eleitoral. 

O TSE não chama de programa de governo, mas proposta, e indeferiu a de Lula em 2018, O Povo Feliz de Novo. Para se distanciar da crise econômica de Dilma, o PT queria ressaltar o tempo daquele cuja popularidade bateu 87% (2010).

Nem todos os candidatos à Presidência nomeavam suas propostas. A da delícia da democracia, Cabo Daciolo (Patri), era Patri, a de Ê-ê-êmaiel, o democrata cristão, se chamava DC, a de Vera (PSTU) era PSTU.

A maioria propôs criatividade e renovação da política; atolada em escândalos. A do Partido Novo se chamava Novo, Ciro Gomes, um nacionalista Brasil Soberano, Álvaro Dias, Mudança de Verdade, e em Boulos, ousadia: Vamos sem Medo de Mudar o Brasil. 

O programa do Alckmin não poderia propor mudança radical. O PSDB era parte do jogo bipolar e foi responsável pelo racha das instituições, ao suspeitar da eleição de Dilma. Sem contar que tinha também tucano atolado na Lava Jato. Foi de Para Unir o Brasil. Marina Silva juntou os dois anseios, união e mudança, e se lançou candidata com Unidos Para Transformar o Brasil.

Henrique Meirelles partiu para algo vago, Essa é a Solução. O MDB não tinha nada de novo, a não ser a eliminação da letra P, e é desde 1985 a solução para a instável governabilidade, como biruta de aeroporto, que muda se pagarem bem (em cargos e verba para emendas). 

A do candidato vencedor, Bolsonaro, em que concorreu com 12 candidatos, se chamava Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos. Abre com a citação bíblica e evidente indireta sobre as revelações da Lava Jato: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8: 32).

Com o subtítulo O Caminho da Prosperidade, a contar pelo desemprego, inflação, derretimento da moeda, fuga de capital estrangeiro e fechamento de indústrias, deveria ser Da Lama ao Caos, ele se divide em capítulos: Constitucional, Eficiente, Fraterno. 

Na Constituição, Bolsonaro quer interferir, ameaça governos com tropas e “seu” Exército, relembra atos institucionais da ditadura, usa e abusa da Lei de Segurança Nacional. Foi eficiente em difundir tratamentos contra a covid não comprovados, mas se revelou amplamente ineficiente no combate à pandemia.

A falta de fraternidade foi o seu forte: no trato com jornalistas, ao ser contra equiparação salarial de mulheres, com o meio ambiente, indígenas, quilombolas e nordestinos, que chamou de paraibanos.

No primeiro parágrafo: “Propomos um governo decente, diferente de tudo aquilo que nos jogou em uma crise ética, moral e fiscal. Um governo sem toma lá-dá-cá, sem acordos espúrios... Um governo que defenda e resgate o bem mais precioso de qualquer cidadão: a Liberdade”.

Foi dos governantes que mais atacou a liberdade de imprensa, boicotou a cultura, bloqueando verbas de leis de incentivo, e acaba de fechar um acordo com parlamentares que, nas palavras de Delfim Netto, traíram a sociedade: “A lambança produzida no Orçamento aprovado pelo Congresso é conhecida: acotovelaram-se R$ 49 bi em emendas parlamentares, mais de R$ 30 bi delas de caráter não obrigatório, em detrimento de um maior espaço às urgências da população”.

Que urgências? Contabilizam-se 400 mil por mortes de covid e 36 milhões de brasileiros na extrema pobreza. O salário mínimo cresceu menos que a inflação, pois o Estado tungou dinheiro de aposentados e pensionista.

No programa do presidente que disse “chega de frescura, mimimi”, e em relação ao combate à pandemia, está escrito: “Devemos ser fraternos! Ter compaixão com o próximo. Precisamos construir uma sociedade que estenda a mão aos que caírem. Escolhas erradas ou tropeços fazem parte da vida. Ajudar o próximo a se levantar nos diferencia como humanos”. 

Ele cortou verbas publicitárias de meios críticos, ameaçou não renovar a concessão da maior emissora do País, declarou o sonho de ver um jornal fechar, mas está no programa: “Somos contra qualquer regulação ou controle social da mídia”. 

Há um erro histórico: “Nos últimos 30 anos, o marxismo cultural e suas derivações como o gramscismo se uniu às oligarquias corruptas para minar os valores da Nação e da família brasileira”. Desde de 1988 vivemos uma união entre marxismo e oligarquias? Nos governos Sarney, Collor, Itamar, FHC e Temer? 

“Após 30 anos em que a esquerda corrompeu a democracia e estagnou a economia, faremos uma aliança da ordem com o progresso: um governo Liberal Democrata”. FHC e Lula estagnaram a economia? “Faremos os ajustes necessários, para garantir crescimento com inflação baixa e geração de empregos”. Chama o Conar: propaganda enganosa à vista, acima de tudo e de todos. 

O programa prometia reduzir o número de ministérios. Eram 23. Hoje, são 22 pastas: 17 ministérios, duas secretarias e três órgãos equivalentes a ministérios. Dá pra reclamar no Procon? 

A maioria dos programas de governos é uma cômica farsa. Mas não precisavam transformar num delírio. De 81 páginas!

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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