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Lúcia Guimarães
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Programas de calouros

Quem disse que o nível do debate sobre segurança nacional entre os pré-candidatos republicanos seria embaraçoso para alunos do ensino médio? Não Hillary Clinton, não Bernie Sanders, ninguém menos do que o ex-Secretário de Defesa Robert Gates, um luminar do Partido Republicano que serviu, desde o governo Richard Nixon, sob oito presidentes. Convidado para um evento em Washington, no fim de janeiro, Gates disse torcer para que seus colegas de partido aspirantes à presidência sejam cínicos e oportunistas, já que a alternativa seria eles acreditarem no que estão dizendo em comícios e debates: fazem ameaças e promessas megalomaníacas que não têm a menor condição de cumprir.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2016 | 02h00

No debate de sábado à noite, quando um moderador fez uma pergunta sobre seguro saúde, o neurocirurgião Ben Carson, como um aluno em recuperação que decorou uma lição nova, queixou-se de que queria ter falado algo antes sobre a Coreia do Norte. E soou resignado: “O fato é que nenhum de nós aqui é especialista em assuntos militares, podemos fingir que somos, mas não somos”.

A velha discussão sobre a importância de política externa na corrida pela Casa Branca tem nova urgência, não só porque as degolas de cidadãos norte-americanos, os ataques em Paris e o massacre em San Bernardino colocaram o Estado Islâmico no centro da campanha. Há uma outra insurgência representada pelo populismo do candidato Bernie Sanders, que não para de subir nas pesquisas e se tornou uma ameaça real a Hillary Clinton. Bernie Sanders é um veterano da Câmara e do Senado que, ao que se saiba, nem assessoria de política externa tinha. Quando a ex-secretária de Estado joga na cara dele o fato de que é a única pessoa entre todos os pré-candidatos com experiência em política externa, o senador reage batendo sempre na mesma tecla: ela votou a favor da guerra com o Iraque, eu votei contra, experiência não é tudo, é importante ter capacidade de julgar. Sim, este voto provocou, mais do que qualquer outra ação, a derrota de Hillary para Obama em 2008. E ela já entrou na campanha dizendo que errou ao autorizar a invasão.

Um fato deve dar prazer aos sanderistas: o último ex-Secretário de Estado que se chegou à Casa Branca foi James Buchanan, em 1857. Ele tem também outra distinção, a de ocupar um habitual primeiro lugar nas listas de piores presidentes dos Estados Unidos compiladas por historiadores.

Pesquisas de opinião mostram que política externa preocupa mais eleitores republicanos do que democratas. De fato, nota-se uma quase negligência sobre economia tal o tempo devotado nos debates republicanos a assuntos como terrorismo, Síria, o acordo com o Irã, a truculência da Rússia e a ameaça da China. Mas, enquanto praticam no palco, os calouros que assustam Robert Gates não apresentam progresso.

Fred Kaplan, veterano analista de relações internacionais e assuntos militares, notou que a ausência do barulhento Donald Trump, no penúltimo debate, retirou o histrionismo mas manteve o festival de desinformação. O verde Marco Rubio, conhecido por decorar frases, diz que vai reconstruir a capacidade de inteligência do país para “nos dizerem onde estão os terroristas”. Sob Obama, o orçamento de inteligência teve grande aumento e terrorismo é a prioridade das várias agências da área. Quase todas as sugestões de Jeb Bush para a Síria e o Iraque já estão em curso sob Obama. Ted Cruz regurgita números nostálgicos para dizer que Obama está destruindo o poder militar norte-americano, ignorando a modernização e substituição de aviões e navios.

Depois do fiasco do Iraque, a tarefa de vender um candidato republicano como o guardião da segurança e da manutenção do poder norte-americano se tornou mais ingrata. Entre os democratas, Hillary precisa pisar em ovos para não alienar seu ex-chefe e possível cabo eleitoral. Mas não é segredo que seu poder na Secretaria de Estado foi sistematicamente esvaziado pela Casa Branca de Obama. Hillary tem no currículo o fato de ser associada a uma presidência acusada de ser invertebrada para lidar com um mundo cada vez mais perigoso – esta é a visão de parte do establishment de especialistas em política externa. Bernie Sanders decidiu ser evasivo sobre o papel dos Estados Unidos no mundo e alega que seu eleitor quer debater a desigualdade econômica. Quando é pressionado, revela insegurança e despreparo.

O que torna esta eleição desalentadora para quem observa os Estados Unidos de fora é a falta de imaginação: os republicanos falam em enfrentamento e vingança, um populista democrata corteja o isolacionismo e ex-Secretária de Estado está concentrada na defesa de seu passado. Mas eleições, no fim das contas, são sobre o futuro.

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