PROGRAMAÇÃO O dramaturgo da terra e dos bens do sangue

Análise: Jefferson Del Rios

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2013 | 02h08

A importância de Jorge Andrade é a mesma de Drummond com quem ele se encontra nos sentimentos e evocações das famílias e dos bens do sangue. Dois fazendeiros do ar. Nostalgia mesclada de crítica sutil a um mundo que é apenas fotografia na parede. O dramaturgo paulista executou com emoção e maestria o conselho que lhe foi dado por Arthur Miller: "Volte para o seu país e procure descobrir por que os homens são o que são e não o que gostariam de ser, e escreva sobre a diferença". A humanidade de Jorge Andrade pertence a um universo rural cada vez mais só matéria de ficção.

O público urbano, sobretudo nas capitais onde acontece a maior parte da produção teatral, parece alheio à ideia do que foram as fazendas de café e sua estrutura social, psicológica e física. Ignora o que é um alqueire de terra, os ciclos de plantio e as "colônias", como se chamavam os ajuntamentos de casas dos trabalhadores, reunindo em vizinhança o caboclo brasileiro e os imigrantes italianos (maciçamente) e japoneses. Isso acabou e Jorge Andrade foi o poeta dramático do lento declínio de uma era econômica. Se o seu enfoque é afetivo-drummoniano, não descarta, porém, o lado duro da questão, como o faz em Vereda da Salvação, teatralização do messianismo como fruto da miséria. Pode ser uma conclusão temerária, mas um teatro requintado na escrita, denso na mirada sobre os desajustes da sua gente não é tão encenado talvez por esbarrar, afora a indiferença citadina, na uniformização do campo por um sistema impessoal denominado, sem nenhum encanto, de agroindústria. A paisagem dos cafezais e os campos de algodão e seus habitantes deram lugar à monotonia infinda e lucrativa dos canaviais povoados por um campesinato meio servo da gleba, meio paria, mas crescentemente ator de reivindicações e confrontos com um rastro de sangue (descritos em Viúvas da Terra, de Klester Cavalcanti - Editora Planeta), o que sugere outra dramaturgia.

A obra de Jorge Andrade sempre será bem-vinda por sua visão humanista abrangente e de fundo atemporal, como a província de Chekhov, e documentação de contradições do Brasil. Além das encenações e leituras dramáticas recentes de Antunes Filho e dos grupos Tapa, Kaus e Latão, será sempre oportuno trazê-lo ao asfalto. Dentro das homenagens que prestam ao grande autor, que se resgate e divulgue o filme Vereda da Salvação, dirigido com grandeza por Anselmo Duarte. O original está protegido na Cinemateca, mas sem versão em DVD e esquecido pelas TVs.

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