Programa para tradutores

O português é uma língua periférica no mundo das traduções, e à exceção de Jorge Amado, Paulo Coelho, Machado de Assis, Clarice Lispector e outros poucos, é tímida a penetração dos autores brasileiros nos mercados editoriais estrangeiros. Com o objetivo de internacionalizar nossa literatura, um pacote estratégico para a década que se inicia está sendo lançado pela Biblioteca Nacional. A ideia é atrair o olhar de fora tanto para os clássicos quanto para a produção contemporânea.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

Hoje, durante a Bienal do Livro, aberta ontem pela presidente Dilma Rousseff, o presidente da Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, vai anunciar as medidas; entre elas, um programa de residência de tradutores estrangeiros no Brasil. Dez profissionais serão selecionados para vir passar de dois a seis meses, já em meados de 2012.

"Serão convidados a morar em diferentes cidades, conhecer mais a língua, a cultura, encontrar escritores, ter contato com o meio acadêmico", explica Galeno. "Não é que não exista qualidade nas traduções, mas é importante que vejam os cenários, os personagens."

Em julho, foram anunciados investimentos de R$ 12 milhões, até 2020, em bolsas de tradução. Emissários estão fazendo visitas pela América do Sul e Europa para espalhar informações sobre o programa, que vale para primeiras publicações e reedições de títulos fora de catálogo.

Outra novidade são os editais a serem lançados para a permanência de autores brasileiros no exterior, para que eles sejam os próprios garotos-propaganda de suas obras, deem palestras e entrevistas. O apoio à publicação e à divulgação em países lusófonos é mais uma frente. "Temos bem menos traduções do que poderíamos", diz Galeno, que vem trabalhando em parceria com o Itamaraty e com as editoras. "O Brasil desfruta hoje de uma imagem muito positiva, é tido como a bola da vez, precisamos aproveitar esse momento."

"Não basta o livro ser maravilhoso, tem que ter apelo internacional", pondera a editora Sonia Jardim, da Record, que está trabalhando no exterior Se Eu Fechar os Olhos Agora, estreia do jornalista Edney Silvestre, que chega chancelado pelo Prêmio Jabuti do ano passado. A Record também negocia o próximo do autor, Felicidade Fácil, que só sai mês que vem.

A imagem do Brasil como a terra exótica de Jorge Amado persiste, acredita o escritor João Paulo Cuenca. Certa vez, ele conta, ouviu de uma editora em Paris que não publicaria O Dia Mastroianni, seu segundo livro (hoje na Itália e em Portugal), porque ele "poderia ter sido escrito em qualquer país".

"A gente tem que mostrar que tem uma palavra sobre o mundo, e não só sobre o Brasil. O papel do governo é fundamental. Os livros espanhóis e franceses que lemos aqui tiveram esse apoio lá", defende Cuenca. Seu terceiro título, O Único Final Feliz para Uma História de Amor É Um Acidente, vai sair na Espanha e na Alemanha.

Tradicionalmente, autores que escrevem em inglês, francês e alemão são os que geram maior número de traduções no mundo. "A língua é a dificuldade central, mas é preciso também que haja um foco dos agentes e das editoras nisso. Não adianta achar que só porque o livro foi bem aqui tudo vai cair do céu", pontua Lucia Riff, a principal agente literária em atividade. Entre seus autores mais traduzidos estão Luis Fernando Verissimo, Lya Luft, Marcelo Ferroni e Leticia Wierzchowski.

Nesse esforço, a homenagem ao Brasil na Bienal - curiosamente, é a primeira vez em 15 edições - dá a partida a uma série que se pretende estender até 2020. Em 2012, o Brasil é o foco da feira de Bogotá; em 2013, o mesmo acontece em Frankfurt, na maior do mundo; em 2014, em Bolonha, a mais importante para o setor infanto-juvenil.

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