Programa ainda em gestação

Quando vi a partitura do Momoprecoce em cima do Steinway anteontem, na Sala São Paulo, pensei que o pianista Nelson Freire estava apenas seguindo o exemplo do notável pianista russo Sviatoslav Richter, que sempre tocava com o nariz enfiado na partitura à sua frente. O público, que cultiva dos grandes solistas a imagem de semideuses, poderia se decepcionar com o fato de ele não tocar de cor. O que parecia só um gesto de quebra de paradigma da cartilha dos superstars do piano (e ele é um deles) transformou-se, ao longo da performance, em realidade mais prosaica. Nelson seguiu a partitura, pulou as páginas onde só a orquestra tocava. Parecia necessitar mesmo da partitura.

O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2012 | 03h09

O que assistimos anteontem é uma leitura ainda a meio caminho de uma interpretação que deve amadurecer nas próximas semanas. Momoprecoce é obra a caráter para o piano sutil de Nelson: obra-prima do período francês de Villa-Lobos, combina uma orquestração transparente, à Ravel, com um pianismo bem mais sofisticado - de novo, afrancesado - do que os padrões villa-lobianos normais.

Os minutos iniciais mostraram Marin e os músicos perseguindo o solista. Aos poucos, eles se ajustaram, mas o clima de corda bamba permaneceu. Note-se que é dificílima em vários momentos a junção entre o piano solista e a orquestra, por causa da polirritmia quase sempre presente. Por isso mesmo, são fundamentais muitos ensaios para uma interpretação madura. No extra, Nelson, que acaba de gravar um CD para a Decca com bastante Villa-Lobos, tocou a Lenda do Caboclo.

Momoprecoce é a obra mais interessante do programa Proms que Marin Alsop estreou anteontem e vai repetir, em sua microturnê europeia com a Osesp, dia 15 de agosto no Royal Albert Hall, de Londres, integrado ao celebrado festival londrino. O repertório é de fato bem engendrado. Começa com a exuberante suíte Estância do argentino Alberto Ginastera, segue com o Momoprecoce e conclui com a Sinfonia Novo Mundo de Dvorák. No concerto do Proms, a Osesp abrirá com a Fanfarra para Um Homem Comum, do norte-americano Aaron Copland.

Todas as obras respiram atmosferas nacionalistas e folclorizantes, bem ao gosto de plateias europeias. Mas Momoprecoce leva vantagem porque é raramente tocada aqui e no exterior. Ao contrário das demais, conhecidíssimas.

As quatro danças da suíte Estância de Ginastera são música de exportação latino-americana. Vibrantes, esfuziantes. Receberam ótima leitura da Osesp e constituíram o melhor momento do concerto. Quanto a Novo Mundo, que Marin já gravou com a Sinfônica de Baltimore para a Naxos em 2008, sua concepção é correta. Mas quem sabe um pouco apressada. Na ânsia de obter mais de seus músicos brasileiros, ela enfatiza cada andamento. Assim, o Allegro molto ameaça vira presto; e o Largo ralenta demais às vezes. Com plateias entusiasmadas, costuma funcionar. Mas, uma vez engatado o andamento, ela raramente o flexibiliza. E isso provoca certa monotonia.

Neste fim de semana, a Osesp toca quatro vezes este programa. É uma maneira útil e costumeira de se aperfeiçoar a interpretação. No intervalo, um músico da orquestra comemorava, no hall da Sala São Paulo, o número maior de ensaios para este concerto. Isso com certeza os deixará mais seguros diante da exigente plateia britânica. É natural que as performances de hoje à tarde na Sala São Paulo e de amanhã no Ibirapuera apresentem melhor entrosamento. Nelson toca também semana que vem o concerto n.º 20 de Mozart com a Osesp. Haverá tempo para mais ensaios do Momoprecoce.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.