Divulgação
Divulgação

Profunda contradição

Filme mostra dramas pessoais vividos pela atriz americana Linda Lovelace

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2013 | 02h17

Garganta Profunda custou parcos US$ 25 mil e se tornou um dos filmes mais rentáveis da história. Além dos oficiais US$ 600 milhões arrecadados em bilheteria, rendeu inúmeros subprodutos. E, agora, corre o risco de faturar mais US$ 10 milhões: é a quantia que seus produtores pediram ontem na justiça em direitos autorais à produtora de Lovelace - eles alegam que o novo longa usa mais de cinco minutos de imagens do original.

Ironicamente, sua estrela, Linda Lovelace, levou para casa apenas US$ 1.250 por sua performance. Levou também a herança de ter se tornado a primeira, e a maior, estrela do cinema pornô. Mas não seria exagero afirmar que ela foi a típica atriz de um filme só. "Pensa-se que ela teve uma carreira na indústria pornográfica, mas só fez este filme. Garganta Profunda 2 (1974) foi feito com sobras do primeiro Garganta", comentou o diretor Rob Epstein, que assina Lovelace em parceria com Jeffrey Friedman. "Linda Lovelace para Presidente (1975) a gente nem considera e não é pornô. Fora isso, não há mais nada", acrescentou Friedman, em conversa com o Estado durante o Festival de Berlim, em fevereiro.

As cenas que retratam os bastidores das filmagens do clássico pornô são um dos pontos altos de Lovelace, quando, ainda que na ficção, o espectador pode espiar os minutos que antecederam a antológica "cena do médico", quando a frustrada Linda descobre que o segredo de seu prazer está na garganta. "Ela era uma iniciante se esforçando para tentar atuar de fato em seu primeiro filme, pois tinha vontade de ser atriz profissional. Queríamos retratar esses momentos com leveza e humor", disse Epstein.

Na verdade, Linda trabalhou em alguns curtas-metragens antes de protagonizar Garganta Profunda. Em um deles, Dogarama (1971) teve relações sexuais com um cachorro, experiência que ela diz ter sido a pior de sua vida. Em sua biografia, Ordeal (1980), relata que fez o filme sob ameaça de morte de seu então marido, Chuck Traynor, que tempos depois a apresentou, e a agenciou, aos produtores de Garganta. "A grande maioria das pessoas não sabe disso e tem uma vaga ideia de quem foi Linda. Ela foi obrigada a fazer coisas que jamais quis, subjugada às surras de Chuck, que até armas apontava contra ela", comentou a atriz Amanda Seyfried, que protagoniza o longa ao lado de Peter Sarsgaard (Chuck).

Ainda que o episódio do curta não esteja em Lovelace, o filme é fiel à versão de Linda dos fatos e mostra como Linda Susan Boreman, garota de uma típica família de classe média americana católica, tornou-se Linda Lovelace. Filha de um policial que acreditava que o sexo era só para a procriação e uma mãe religiosa e severa, que a criou sob a ideia de que uma esposa devia sempre servir a seu marido, ela, aos 20 anos, viu no charmoso Chuck a possibilidade de liberdade. Vivida por Sharon Stone, a figura da mãe ironiza a figura da atriz que, assim como Linda, foi símbolo sexual de uma geração. "Foi ótimo trabalhar com ela, que me deu muita confiança e provou que uma mulher pode sempre reinventar seu papel", contou Amanda.

Para a atriz de 27 anos também foi importante contar com a parceria de Sarsgaard em cenas que envolviam nudez e violência. "Chuck é um personagem tão distante de mim. Tentei imaginá-lo como um garoto de cinco anos, uma criança que, ao perder seu objeto de desejo, torna-se violento e dá socos e pontapés", comentou o ator ao Estado. "Só que, no caso dele, o objeto era Linda."

Talvez a maior força da história de Linda esteja nas contradições. Garganta Profunda ousou tratar da liberação e do prazer feminino e, no entanto, carrega o peso de ter sua protagonista surrada pelo marido nos bastidores. Por outro lado, Linda só conseguiu se livrar da violência de Chuck ao ganhar fama como estrela da indústria pornográfica, que ela combateria mais tarde, até morrer, em 2002. "Ela denunciou todos os abusos que sofreu e viu. Talvez não tenha feito as pazes com seu passado, mas arrisco dizer que, quando se casou de novo, teve dois filhos e escreveu sua biografia, chegou muito perto disso", concluem os diretores. 

 

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.