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Professoras

Abriu a bolsa, tirou uma folha amarelada e disse: 'Esta é a tua primeira redação!'

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2017 | 02h00

Dois leões de pedra, no topo das extremidades do portão de ferro, são guardiães simbólicos do prédio antigo. Flores vermelhas do jambeiro ainda cobrem o piso do pátio, e os corredores laterais, largos e alpendrados, dão acesso às salas do grupo escolar onde passei a maior parte da minha infância.

 

As brincadeiras terminavam quando a professora aparecia entre os dois leões; ela subia lentamente a escada, e antes de entrar na sala, os alunos já estavam à espera da primeira lição da manhã. 

O grupo escolar Barão do Rio Branco - hoje uma escola estadual - foi construído numa época de fausto, mas acolhia crianças de todas as classes sociais. Ainda me lembro de quatro ou cinco curumins: um deles, o Tarso, usava brilhantina nos cabelos, mas o que brilhava de verdade era o desenho caprichoso de cada letra; hoje, eu o vejo como um pequeno calígrafo que manuseava um cálamo. Tarso e sua família moravam numa palafita à beira do Igarapé de Manaus. Este e outros igarapés foram aterrados, não sei por anda Tarso, um dos alunos que atraíam a atenção da professora que nos ensinou a ler e escrever.

Ela era exigente em sala de aula e severa no trato com os bagunceiros; talvez fosse dócil com os bonzinhos, mas não me lembro de anjo, querubim ou arcanjo algum. O olhar dela era austero, às vezes terno, mas a fala e os gestos eram quase sempre pacientes: a repetição de cada explicação é um exercício de paciência. Brasília já existia, mas estava ausente no velho mapa do Brasil. E eu nem sequer desconfiava que seis anos depois iria viver na capital... 

Uma noite, três décadas depois das primeiras letras, quando lançava meu primeiro romance na Biblioteca Pública de Manaus, vi uma senhora muito elegante na fila. Percebi alguma familiaridade no rosto que me olhava, mas não o reconheci no ato. A memória, essa guardiã de sentimentos íntimos, me revelou o rosto da professora Maria Luiza de Freitas Pinto. 

Conversamos um pouco e assinei um livro para ela. Antes da despedida, abriu a bolsa e tirou uma folha amarelada, dobrada ao meio. Disse: “Esta é a tua primeira redação! Foi escrita no Barão do Rio Branco...”.

Olhei de relance a caligrafia, que nem de longe se comparava à de Tarso. Não li o texto: o gesto amoroso de guardar por tanto tempo palavras de uma criança prevaleceu sobre a curiosidade; sem dúvida, ela guardara textos de outros alunos num baú cheio de redações. 

Revi dona Maria Luiza em 2008, quando lancei outro romance em Manaus, desta vez na Banca do Largo São Sebastião, do amigo Joaquim Melo. Ela mora ali perto, numa casa antiga e espaçosa, onde Sheila, uma parente de dona Maria Luiza, me ensinara inglês. 

Em agosto do ano passado, viajei com o escritor Reinaldo Moraes e uma equipe de tevê para Manaus, onde eles iam fazer um documentário sobre o romance Cinzas do Norte e a cidade. Na calçada do mesmo grupo escolar, contei a Reinaldo lances da infância manauara, numa época em que a escola pública ainda era frequentada por crianças e jovens de todos os estratos sociais. Enquanto observava os estudantes, pensei na mulher que me alfabetizara: ela acabara de completar 100 anos.

A diretora do documentário quis entrevistá-la. Dois amigos (a jornalista Leyla Leong e o professor Ernesto Renan Freitas Pinto, sobrinhos da professora) mediaram esse encontro na casa em que Maria Luiza sempre morou. Reconheci a mobília e alguns objetos daquela época; um corredor comprido e um pouco escuro terminava numa saleta iluminada pelo sol da manhã. Com lucidez e nostalgia, a professora centenária recordou cenas e anedotas da minha infância razoavelmente feliz, interrompida em 1964, quando também foi interrompida a implantação do projeto “Escola Nova”, do grande educador baiano Anísio Teixeira, então reitor da Universidade de Brasília. Nove dias depois do golpe militar, o câmpus da UnB foi invadido pela polícia e Anísio foi demitido da reitoria. Em Brasília, no final dos anos 1960, estudei numa das escolas idealizadas por ele: um colégio de aplicação, extinto em 1971 pelo governo militar.

 

“Viver numa terra trágica é o mesmo que viver num tempo trágico”, escreveu Wallace Stevens. Nesta terra e neste tempo trágicos, faço mais essa modesta homenagem a uma professora da província e a um filósofo da educação, ambos igualmente importantes para tentar mitigar o atraso nesta nação fraturada, país de “mil-e-tantas misérias”, como disse um mago de Minas. 

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