Professora lança livro sobre Chico Buarque

Na hora da separação, ela garante que não vai te dar o enorme prazer de vê-la chorar e ainda se agarra ao disco do Pixinguinha. Depois, olha para o armário e consegue enxergar um paletó enlaçando um vestido. É a mulher vista pelas canções de Chico Buarque, notável tradutor de estados de espírito femininos.É para examinar esse domínio de Chico que a professora Adélia Bezerra de Menezes lança amanhã , às 19h30, na livraria Edusp Maria Antônia (Rua Maria Antônia, 294) o livro Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque (Ateliê Editorial e Boitempo Editorial). A autora lecionou Literatura Brasileira na Technische Universität de Berlim e é professora de Teoria Literária na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).Não é a primeira vez que Adélia se aventura pela obra de Chico. No início dos anos 80, já tinha lançado Desenho Mágico - Poesia e Política em Chico Buarque (cuja reedição saiu recentemente pela editora Ateliê e que chegou a ganhar um Prêmio Jabuti em 1982). Ela não avalia a obra de Buarque como música, mas como "alta poesia", segundo afirma."Ele às vezes assume um ponto de vista espantosamente feminino", diz a autora. Em qualquer show de Chico Buarque é possível ver o fascínio que o cantor e compositor de 55 anos, três filhas e dois netos causa na ala feminina do público. Boa parte desse fascínio, segundo pondera a jornalista Regina Zappa, autora de livro sobre o compositor, vem mais de sua habilidade em descrever sentimentos do que nos olhos verdes do cantor. "Eu acho que a chave disso tem muito a ver com a música dele, com o sentimento das suas canções, que são muito fortes e autênticas", diz Regina.Livro - Figuras do Feminino perpassa todas as mulheres da obra do cantor, de Carolina e Bárbara a Cecília e Você Você, do disco mais recente. E articula as canções com imagens que se relacionam com os temas, telas de Di Cavalcanti, Vicente do Rêgo Monteiro, Volpi e outros. Em Pedaço de Mim, por exemplo, Adélia de Menezes usa uma reprodução da tela O Casa, de Ismael Neri. Em Angélica, é uma ilustração de Portinari. E assim por diante."Não é um livro para qualquer leitor, no entanto. Tem uma abordagem acadêmica, já que foi concebido como tese. Mas a análise das letras do autor dá uma certa leveza à publicação, ajudando a transpor os entroncamentos teóricos. A autora revela artifícios do compositor, que às vezes usa sobreposição de imagens (a mulher e a cidade) para falar do tema do feminino e passa do afetivo ao social, do sexual ao político, sempre sob um prisma original - diferentemente do discurso habitual sobre a mulher.

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