Produtor inglês cria desfiles em São Paulo

O estilista Carlos Miéle, da M. Officer, convidou o inglês Judy Blame para fazer a produção de moda de seu desfile, que inaugura no dia 31 de janeiro, próximo à nova versão do maior evento de moda brasileira, que a partir desta edição se chamará SP Fashion Week. "Durante muito tempo trabalhei sozinho, fazendo a produção, a roupa. Chegou a hora de dialogar e os ingleses são muito abertos", diz Miele sobre o novo contratado da M. Officer. Judy Blame, um nome que nasceu do apelido que ele ganhou nos anos 80, quando trabalhava numa boate e usava um cabelo no estilo Judy Garland, produz a imagem de Björk e de grupos de música como Massive Attack e cantoras como e Neneh Cherry. Também já produziu a atriz Cameron Diaz para a revista Arena e trabalha para John Galliano e para o chapeleiro Philip Treacy. Ele assina o catálogo Primavera/Verão 2000/01 da M. Officer. O stylist de revistas como I-D, The Face, W, Arena e Vogue, que está no Brasil pela primeira vez, tem um assistente brasileiro, Ciro Medina. Alguns dos últimos trabalhos que assinou são a campanha em outdoors para a loja de departamento londrina Liberty, e o desfile de jóias que produziu para a tradicional joalheria Tiffany. Como foi que você se tornou produtor de moda? Em 84, durante a fase da moda New Romantics, criar um look mais fantasioso era muito importante no meu meio, que era o Boy George, o chapeleiro Steven Jones, o pessoal da Body Map, e aí o Terry Jones fundou a revista I-D, que se tornou um lugar para expressarmos nossas idéias, e as coisas foram rolando. Tenho paixão por roupas então foi uma maneira de trabalhar com uma coisa que adoro. O Brasil está mesmo na moda ou isso é papo de inglês? No momento, muita gente está observando o Brasil para descobrir talentos que estimulem a criatividade do mercado global de moda. O caldeirão cultural brasileiro é muito moderno. É o jeito do futuro. Hoje o novo está nas misturas. Você trabalhou para Azzedine Allaia? Não, mas estivemos juntos várias vezes porque o Jean-Baptiste Mondino, com quem trabalho há muito tempo, fotografava as coisas de Azzedine, que adora a Neneh Cherry e eu sou padrinho de duas filhas dela. Azzedine tem uma cozinheira africana, que faz jantares maravilhosos, vai a Naomi (Campbell), é muito divertido. E o Jean Baptiste-Mondino? Ele é genial. Já fizemos alguns vídeos juntos, ele não dirige muitos, mas quando faz arrasa. São impecáveis. Eu fiz a produção do Under my Skin, dirigido por ele, para angariar fundos para Aids. Foi um projeto muito emocionante. Winona Ryder, ao ser perguntada quais eram as tendências, respondeu com a pergunta: "Mas não estão todas as tendências na moda?" O que você diz? Estamos vivendo um momento tão fértil da moda, que são tantas as tendências, que você pode inventar o seu look. Tudo é possível na moda e na música. É claro que tem uns climas dominantes, uma estação pode ser mais chique, a outra, mais dark. E qual é o clima agora? Está um pouco meados dos anos 80. Respeito o passado, mas estou mais interessado no futuro. Gisele é brasileira mas poderia ser alemã, americana ou até italiana do norte. Por que não temos mais Naomis, mais Alek Wek...? Acho que está melhorando. A influência do Brasil na moda internacional é um indicador. Os grandes da alta-costura sempre exploraram as etnias como Gaultier, que também usa pessoas mais velhas em seus desfiles e publicidade. Azzadine Allaia gosta de mulheres com presença. St. Laurent sempre usou modelos etíopes. Seriam as agências de modelos as culpadas? Acho que não. Há um consenso geral que modelos caucasianas vendem mais. Mas está mudando. As pessoas estão mais atentas para o fato que, hoje, o importante é promover as diferenças, inclusive nas roupas. Ainda bem que existe uma Naomi Campbell que está no top há anos, porque mesmo sendo uma negra inglesa não foi fácil chegar onde ela chegou. Outra que também está quebrando barreiras é a curvilínea-cheinha Sophie Dahl. Isso é ótimo. São pouquíssimas as pessoas com o corpo da Gisele. Carlos Miéle e você estão pensando em trazer modelos de fora para o desfile da São Paulo Fashion Week? Não fizemos o casting, mas provavelmente sim. E a Kate Moss, o que você acha dela? Eu a conheci quando ela tinha 15 anos e estava começando, era uma linda adolescente inglesa, mas já era especial. Ela trouxe um jeito mais natural para a supermodel. É uma supermodel sem ser pedante. Kate é uma modelo flexível, pode interpretar qualquer clima. O que você conhece de moda brasileira? Conheço Alexandre Herchcovitch e Icarius, e estou aproveitando a viagem para fuçar.

Agencia Estado,

10 de dezembro de 2000 | 20h17

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