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Produtividade mínima

Eu tento, me esforço, me concentro. Imaginei um belo texto sobre avós e netos

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2017 | 03h00

Meu assento é o 22D, corredor. Retorno de Paris para Lisboa, num voo numa companhia espanhola. Preciso escrever. Determinei em minha cabeça que preciso redigir ao menos um texto quando voo, produtividade mínima. Mas não está fácil dessa vez. É um voo cheio de povos latinos, há sangue demais correndo nas veias para que o silêncio consiga imperar.

Ao meu lado, um casal português de cerca de 50 anos. Eles usam muitas estampas. Tudo tem estampas. A camisa dele, o vestido dela, a armação dos óculos dele, a bolsa dela. São simpáticos. Sorriram para mim ao sentar. Aquele sorriso tímido português que serve unicamente como manifestação de ausência de confronto. Eles gostam um do outro, é evidente que gostam. Apoiam as cabeças uma na outra, dividem o suco de laranja. É impossível dividir um suco com alguém que a gente não ame. Ela não para quieta no assento, mas ele tem uma paciência longa. Paciência é uma forma de amor. Talvez uma das mais valiosas.

Do outro lado do corredor, uma casal muito, muito bonito. Ela é muito morena, aquele tom de moreno dos indianos, um pouco avermelhado. Seus cabelos são como eu jamais sonhei que os meus pudessem ser: longos, volumosos, cheios de ondas, especialmente nas pontas. Ela está grávida de seis ou sete meses e está com um vestido azul-marinho com um elástico abaixo do peito. Tenho vontade de olhar para ela muitas vezes, porque é uma mulher, mas parece muito uma paisagem. Seu marido (sei que é marido, embora não haja aliança) é um belo, alto e magro francês, grisalho, de olhos claros e barba por fazer. Uma fórmula infalível. Em termos estéticos, merecem-se, sem sombra de dúvida. 

No colo do francês está o filho mais velho deles, tem 21 meses, conforme disseram à comissária. Detesto gente que fala idade em meses, me obrigando a fazer cálculos. Ela fala inglês com o bebê, que é simpático, mas que definitivamente não é bonito. Não sei se um dia será, aquela carinha não me parece ter muita solução. Mas se continuar sendo simpático, tudo bem. Ser simpático muitas vezes é mais eficiente do que ser bonito. Ele está fazendo uma bagunça danada: adesivos na poltrona, chupeta no chão, meia no corredor. É uma boa criança.

Na frente do pai francês bonitão, um rapaz negro também muito bonito. Deve ter uns 22 anos. Pelo tom da sua pele, eu diria que ele é cabo-verdiano, mas ele está lendo um livro em francês, que eu tento enxergar sem sucesso, o que me fez imaginar que ele é filho de um belo homem da Costa do Marfim, com uma francesa branca, o que resultou nessa mistura muito mais bem-sucedida do que o bebê do casal capa de revista aqui do lado. O rapaz também é simpático. O bebê chuta suas costas sem parar e ele apenas sorri. Gosto muito, muito desse tipo de pessoa.

Na fileira de trás, o que me impede de escrever: uma família espanhola. Um casal e dois filhos. Pai e filha de um lado do corredor, mãe e filho do outro. A menina tem seus 14 e está com seus fones de ouvido, agasalho cor-de-rosa e um ar distante que só os adolescentes conseguem ter. O menino é impossível. Deve ter 8 anos e fala com aquela voz metálica que só os espanhóis conseguem ter. O pai responde com seus “s” cortantes e seus “es” tão abertos, num volume três vezes mais alto do que o necessário. A mãe fala pouco, mas mexe-se na poltrona com tamanha violência que sinto como se cada movimento dela fosse assustadoramente meu.

Eu tento, me esforço, me concentro. Imaginei um belo texto sobre o misto de paixão e exaustão que reina na relação entre avós e netos. Era isso que eu ia escrever. Não escrevi. Fiquei aqui, com o olhar perdido entre histórias desconhecidas, das quais eu nunca participarei, mas que presencio com prazer. 

O texto dos avós vai aguardar. Hoje, só deu para imaginar amores e desencontros.

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