Produções cômicas trazem reflexões sobre o Brasil

Já se sabia que as comédias brasileiras estavam salvando a lavoura do cinema nacional. Pelo menos em termos de bilheteria. As chamadas ?globochanchadas?, responsáveis por quatro das cinco melhores bilheterias do cinema nacional em 2012, tinham respaldo do público. Mas não da crítica ou dos festivais de cinema, que, com raras exceções, não as seleciona.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, Agência Estado

03 de junho de 2013 | 10h09

Mas tudo começa a ser repensado depois de a comédia Vendo ou Alugo (estreia prometida para agosto), de Betse de Paula, ter passado como trator pelo Cine PE, o festival de cinema do Recife, levando a maioria dos prêmios. Dos 12 troféus do júri oficial, ficou com dez. E mais, levou, como se esperava, o prêmio do público e, surpreendentemente, também o da crítica. Para resumir: fez barba, cabelo e bigode.

O resultado pode ser (e é) anômalo. Mas não deixa de apontar o que talvez seja uma tendência - as comédias, antes confinadas ao ?gueto? do público, agora põem suas manguinhas de fora e começam a cavar respeitabilidade em áreas antes avessas a elas, em festivais e, em especial, junto à intelligentsia cinematográfica. Ou Vendo ou Alugo terá sido um caso isolado?

A senha já fora dada por um dos mais importantes pensadores de cinema do País, Jean-Claude Bernardet, professor da USP e autor de livros seminais como Brasil em Tempo de Cinema e Cineastas e Imagens do Povo. Em seu blog, Bernardet escreveu o seguinte:

"Após acalorada discussão em torno de De Pernas pro Ar 2, venho a público manifestar minha esperança de que as gentes bem pensantes, os intelectuais, os artistas, os autores, os poetas e outros de gosto requintado, não caiam na mesma burrice dos anos 1950. Foi preciso esperar a morte da chanchada para que a elite percebesse que Oscarito e Grande Otelo eram grandes atores, e que Carnaval Atlântida era um filme político.

De Pernas pro Ar 2 é um filme atual que trata de problemas que angustiam boa parte da classe média, como: o trabalho da mulher, a relação da mulher que trabalha com o marido, os filhos e a casa, o estresse da mulher executiva que estressa os homens, o péssimo estado da telefonia celular no Brasil e também o celular como adição, a exportação de produtos manufaturados brasileiros, etc. Se o filme não abordasse comicamente questões do seu interesse, o público não teria sido tão numeroso."

As palavras de Bernardet foram lidas no debate do filme em Pernambuco e tiveram repercussão entre os jornalistas. Mariza Leão, produtora de Vendo e Alugo e também do citado De Pernas pro Ar, conserva o texto de Jean-Claude gravado em seu iPhone, à maneira de um amuleto ou um breviário.

Entusiasmada com o respeito dedicado ao seu filme nos debates, e antes mesmo de sonhar que poderia receber premiação tão estupenda, ela disse: "Um estrangeiro que quisesse hoje vir ao Rio ficaria mais bem informado assistindo a Vendo ou Alugo do que Cidade de Deus."

Mariza refere-se ao já antológico filme de Fernando Meirelles, que ainda passa no exterior por modelo do cinema brasileiro contemporâneo com sua visão distópica de uma comunidade dominada por traficantes. Já Vendo ou Alugo situa-se no Rio das Unidades de Polícia Pacificadora, no qual um traficante ?do bem?, como o interpretado por Marcos Palmeira, se encanta com a coroa cheia de vitalidade, filha de família tradicional, porém arruinada, interpretada por Marieta Severo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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