Produção teatral é tema de livro

Acaba de sair pela Aeroplano um lançamento raro no mercado editorial A Construção do Espetáculo, o making of de uma peça teatral. A convite do diretor Moacyr Góes, o jornalista Luiz Noronha e o fotógrafo Rogério Faissal acompanharam o processo de criação da peça Bispo Jesus do Rosário: A Via-Sacra dos Contrários, desde o primeiro dia de ensaio - 4 de julho de 1999 - até à nervosa noite de estréia no dia 10 de setembro.Ilustrado com dezenas de imagens captadas por Faissal, com narrativa fluente e um ótimo projeto gráfico, A Construção do Espetáculo proporciona leitura atraente, que pode cativar a atenção de qualquer pessoa interessada em conhecer melhor o intricado processo de criação de um espetáculo, desde os envolvidos com a atividade teatral até o espectador curioso.Impacto - Como bom jornalista, Noronha começa por apurar a origem da criação da peça, antes mesmo do início dos ensaios e de seu engajamento no projeto. Por meio de entrevistas, resgata, no primeiro capítulo, o impacto da obra de Bispo do Rosário sobre Moacyr e Clara de Góes, irmã do diretor e autora do texto, numa exposição do artista no Museu de Arte Moderna, no Rio, ponto de partida para a escolha do tema da peça. E conta ainda o esforço despendido pelo diretor e seu outro irmão, o ator Leon Góes - que interpretaria Bispo do Rosário -, para convencer Clara a envolver-se no projeto.Uma vez convencida, a poeta, psicanalista e dramaturga Clara foi pesquisar a vida daquele homem solitário, internado sob o dignóstico de esquizofrenia paranóide na Colônia Juliano Moreira em 25 de janeiro de 1939, onde morreria, aos 78 anos, em julho de 1989. "Ficou óbvio para mim que o roteiro que ele cumpriu - de um negro, pobre, que cai na rede hospitar pública com diagnóstico de paranóico - era uma via-crúcis", diz Clara, numa das declarações com as quais Noronha costura sua narrativa."Clara vendeu e Moacyr comprou: ficou decidido que a história do homem seria contada por meio das 14 estações da via-sacra", narra Noronha. "Começa com o Bispo só, vendo pela primeira vez os sete anjos azuis, que o acompanhariam por toda a vida, numa rua de Botafogo; dali, o texto segue para o Mosteiro de São Bento, quando ele se anuncia para os monges, e vai para a Colônia, onde passa a habitar o impiedoso submundo da assistência psiquiátrica pública."As outras estações recriam a relação de Bispo com os demais internos da Colônia, entre eles uma Sireneu vivida pela atriz Marcélia Cartaxo, alguns guardas e Verônica (Helena Ranaldi), personagem na qual foi transformada a estagiária Rosângela, a primeira a conseguir um contato mais profundo e humano com Bispo.A partir daí, o olhar atento e sensível do "espião" Noronha recria nos oito capítulos do volume outra "via-sacra", a da trupe de 19 atores conduzidos por um diretor sem idéias preconcebidas, por um caminho absolutamente incerto. Afinal, não se tratava de mais uma encenação de um texto clássico - que sempre oferece ao diretor, elenco e equipe técnica, o apoio de estudos e o modelo das leituras cênicas precedentes -, mas sim da montagem de um espetáculo inteiramente criado durante os ensaios.Caos - A contribuição de toda equipe, as boas surpresas e os impasses, situações comuns e até necessárias na construção de qualquer espetáculo, tendem a ser ainda mais intensas nesses casos, quando se tem pela frente um universo desconhecido a ser construído a partir do caos inicial.Quem é do métier sabe a dor e a delícia de mergulhar nesse mundo caótico dos primeiros ensaios, quando ainda se tateia no escuro. Difícil captar em pouco mais de cem páginas toda a turbulência de dois extenuantes meses de ensaio. Noronha fez boas escolhas, pinçou momentos de impasses e de descobertas, partilhando com o leitor, de forma generosa, sua posição privilegiada da voyeur.Mas não saiu impune da experiência. Aos poucos, a precisão jornalística dos primeiros capítulos - generoso em dados como número e origem dos atores que integram o elenco, orçamento e patrocinadores da montagem, localização do teatro, ambientação - vai cedendo lugar à emoção, sem prejuízo para a narrativa.Pelo contrário. Ele tira proveito da emoção, tornando a narrativa mais vibrante. E capta com rara acuidade o essencial nesse tipo de processo: a descrição daquele "achado" cênico, o troca-troca de papéis, a angústia do ator que não acha o tom, a cobrança angustiada de definições feitas pelo elenco ao diretor, sempre impossíveis de serem dadas nesses casos em que as improvisações fundam a criação.A Construção do Espetáculo, de Luiz Noronha e Rogério Faissal. Editora Aeroplano. 176 págs.,R$ 12

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