Gilvan Barreto/Divulgalção
Gilvan Barreto/Divulgalção

Produção nacional em debate

Proposta do evento, que começa hoje no CCBB, é revisar a filmografia brasileira nos anos 2000

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2011 | 00h00

Cada um é livre para fazer suas escolhas. O maior filme da Retomada - o período do cinema brasileiro que começou após a derrocada da era Collor - segue sendo Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, mas é possível manter um carinho especial por Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, tudo isso sem deixar de reconhecer a importância estética e histórica de Tropa de Elite (1 e 2), de José Padilha, principalmente do segundo da série, que, com mais de 12 milhões de espectadores, se transformou no maior sucesso de todos os tempos, na história do cinema no País.

Bye-bye, Retomada. O termo ficou para trás, como aquele período sombrio, quando o cinema brasileiro teve de se reinventar para recuperar o espaço perdido nas telas. No Centro Cultural Banco do Brasil começa hoje um ciclo que pretende revisar/discutir o cinema do País nos anos 2000. Com organização da Revista Cinética e curadoria de Eduardo Valente, Cleber Eduardo e João Luiz Vieira, o evento pretende mais do que simplesmente mapear a produção cinematográfica dos últimos dez anos. Não apenas por meio da seleção de filmes, mas também de uma série de debates, o que estará em polêmica serão as questões suscitadas pelo cinema, como espelho do País. Há dez anos, no CCBB do Rio, já foi realizado um evento pioneiro - Cinema Brasileiro, Anos 1990 - Nove Questões. Não por acaso, os curadores das mostras também fazem a curadoria do Festival de Tiradentes, hoje a maior vitrine do cinema de invenção nacional.

Até dia 1.º em São Paulo e de 26 de abril a 8 de maio no Rio, a mostra vai apresentar 60 filmes em película e digital. Pegue, por exemplo, os filmes de hoje - Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat; Baixio das Bestas, de Cláudio Assis; e O Signo do Caos, de Rogério Sganzerla. Um filme sobre os anos de chumbo - e a forma como a guerrilha, convivendo com criminosos comuns nas prisões da ditadura militar, pode ter fortalecido uma certa dialética da violência; uma investigação sobre a violência, inclusive ou principalmente sexual, nos canaviais do Nordeste; e um outro tipo de violência, representado pelos censores - liderados pelo dr. Amnésia - que mutilam um filme e tudo termina em samba, a Aquarela do Brasil, para celebrar o esquecimento.

O debate de hoje, com a participação do crítico do Estado, Luiz Zanin Oricchio, não poderia levar um título mais apropriado - Que País É Esse? É uma interrogação que muitos (todos?) se fazem. Há quase 40 anos, o então presidente da França, general Charles De Gaulle, fez uma declaração que causou espécie, ao dizer que o Brasil não era um país sério. Hoje, se pode devolver a ironia e dizer que é a França, sob Sarkozy, que não é séria, mas isso não vai resolver a questão. Que País é esse? A verdadeira questão talvez seja outra - que País é esse que o cinema nos revela? A diversidade tem dado a tônica do cinema brasileiro e é certamente desejável, ou defensável. Ninguém espera ver um só cinema hegemônico dentro do próprio País - chega o de Hollywood, para o qual o circuito continua formatado.

Questões éticas, estéticas, políticas. De um lado, o cinema de autor, preferido dos críticos. De outro, um cinema comercial, que parece haver descoberto (e dominado) a fórmula do blockbuster. Um cinema que o público adora e os críticos desprezam, com exceções - o caso Tropa de Elite, por exemplo. Ou Cidade de Deus, City of God, de Fernando Meirelles, que, para o bem e para o mal, virou a referência internacional sobre o cinema brasileiro, ao longo da última década.

O ciclo pretende exibir e debater tudo. Os novos heróis brasileiros, o Capitão, agora Coronel Nascimento à frente, quais os gêneros são nossos, a imagem interna e externa do cinema nacional. E os filmes, os autores, veteranos e novos. Entre o miúra e blockbuster, o evento do CCBB talvez descubra uma terceira via para o cinema brasileiro.

ENCONTROS

HOJE

Que País é Esse?, com Luiz Zanin Oricchio e Cássio Starling Carlos

AMANHÃ

Para Onde Vão Nossos Heróis?, com Francis Vogner e Sheila Schwartzman

SEXTA-FEIRA

Quais Imagens do Brasil Lá Fora?, com Luiz Carlos Merten e Marcus Mello

QUARTA-FEIRA, 20/4

Subjetividade: Modo ou Moda?, com Pedro Maciel Guimarães e Cesar Zamberlan

QUINTA-FEIRA, 21/4

Que Gêneros São Nossos?, com Inácio Araújo e Mauricio Reinaldo Gonçalves

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