Produção crítica como meio de decifrar a cultura

Escritos entre 1802 e 1901 pelos maiores autores russo, 22 ensaios permitem fértil debate de ideias sobre o país

AURORA BERNARDINI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 02h43

É justamente na época de Puchkin, no início do oitocentos, no momento da consolidação do russo como língua nacional, que se inicia esta Antologia do Pensamento Crítico Russo, organizada por Bruno Barretto Gomide, cujo primeiro texto sobre a insipiência da literatura russa, Do Amor à Pátria e do Orgulho Nacional (1802), de Nikolai Karamzin, paradoxal e pessimista, mas cheio de expectativas, prenuncia o outro, Da Insignificância da Literatura Russa, de 1834, do próprio Puchkin que, por sinal, em seu famoso conto A Dama de Espadas (Editora 34) faz um dos protagonistas se queixar de que não há romances russos para ler, mas apenas novelas copiadas de modelos do Ocidente.

O período abarcado pela antologia (1802-1901) foi escolhido, explica o organizador, por alguns motivos fundamentais. Primeiro, para mostrar como "as idas e vindas entre texto crítico e texto literário produziram (e ainda produzem) uma dinâmica essencial para a vida intelectual russa", não apenas porque a maioria dos escritores se dedicava à crítica, mas também, como reconhece Bielínski, o maior crítico russo do século, em seu primeiro ensaio na Antologia (1846), porque a literatura era uma escola de vida, era "o fator agregador de pessoas intimamente separadas em todos os outros aspectos"; segundo, para ilustrar como a oposição ocidentalistas x eslavófilos (nacionalistas radicais), que marcou, até a revolução de 1917, as principais disputas da intelligentsia russa, foi particularmente intensa nesse século e, last but not least, para trazer ao conhecimento do leitor brasileiro, já relativamente familiarizado com a literatura da Rússia, também alguns momentos importantes de sua crítica, com o grande mérito de apresentá-los sob prismas diferentes.

O primeiro exemplo da antologia é o da Primeira Carta Filosófica (1836), de Piotr Tchaadáiev, em que as expectativas de Karamzin e a sátira de Púchkin quanto à relação Rússia-Ocidente, levadas ao paroxismo pelo tom catastrófico de Tchaadáiev, são rebatidas por Aleksiéi Khomiakhov, em suas ufanísticas Algumas Palavras Sobre a Carta Filosófica.

Ora, é o mesmo autor que apresenta facetas diferentes em análises diferentes - é o caso do já mencionado Karamzin, prefaciando otimisticamente o segundo ensaio, a História do Estado Russo (1818) -, ora, estabelece-se sobre a mesma obra um diálogo de opiniões, geralmente contrastantes. É o caso da recepção na Rússia da obra-prima de Nikolai Gogol, As Aventuras de Tchítchikov ou Almas Mortas, por alguns considerada uma farsa cruel e por outros uma epopeia, como faz Konstantin Aksákov em Algumas Palavras Sobre o Poema de Gogol (1842). Ou seria, junto com o Inspetor Geral, "um desvelador das contradições históricas e sociais da Rússia, com olhar crítico e ocidentalizante", como queria Bielínski que, em sua admirável Carta a Nikolai Vassílievitch Gogol (1847), lhe enaltece as primeiras obras, mas vergasta-lhe as últimas (no fim da vida, Gogol tornou-se cada vez mais religiosamente exaltado e panfletário). "Segundo o senhor" - escreve Bielínski a Gogol -, "o povo russo é o mais religioso do mundo. Mentira! A base do sentimento religioso é a piedade, a devoção, o temor a Deus. O russo pronuncia o nome de Deus coçando o traseiro. (...) Observe com cuidado e o senhor verá que este é um povo profundamente ateu, por sua natureza. Há nele ainda muita crendice, mas não há vestígio de sentimento religioso. (...) O povo russo não é assim: a exaltação mística não está de modo algum em sua natureza; ele tem bom senso, lucidez e espírito confiante demais para isso, e talvez aí, justamente, se encerre a grandeza de seu destino histórico no futuro."

Além das cartas, há alguns discursos notáveis nessa antologia. À parte os do filósofo Vladímir Soloviov (1881-3), que vê na Igreja o ideal social de Dostoievski, ideal esse contrastando com O Talento Cruel (1882), quase psicanalítico, que Nikolai Mikhailóvski reconhece ao escritor, há o famoso discurso do próprio Dostoievski (que sempre se disse eslavófilo) por ocasião da inauguração de uma estátua a Puchkin (1880), quando, após um brilhante apanhado da obra do homenageado chega à proposta de uma comunhão universal: "Sim, é incontestável que a vocação do homem russo é unir a Europa e o mundo todo. Ser um verdadeiro russo, ser russo o suficiente, pode significar e significa apenas (...) tornar-se irmão de todos os homens, um homem universal, por assim dizer. Ah, todo esse nosso eslavofilismo e ocidentalismo é apenas um grande equívoco, embora historicamente necessário".

Historicamente necessário será, de acordo com Gueórgui Plekhanov - que, junto com Herzen de Literatura e Pensamento Social, 1850, é o pensador russo de cabeceira de Isaiah Berlin (Isaiah Berlin: Com Toda Liberdade, Ed. Perspectiva) -, em seu discurso sobre a obra e o pensamento de Vissarion G. Bielínski (1898), aquilo que curiosamente (e profeticamente) o ocidentalista e socialista Bielínski, que tanto exaltara Pobre Gente de Dostoievski, chegou a propor quase como testamento. "O meu amigo crente" (escreve Bielínski numa carta a Ánnenkov de fevereiro de 1848, talvez se referindo a Bakunin), "e os nossos eslavófilos, ajudaram-me muito a abandonar a crença mística no povo. Onde e quando o próprio povo se libertou? Sempre tudo se fez pela personalidade. Quando eu, em nossas discussões sobre a burguesia, lhe chamei conservador, fui um asno ao quadrado, enquanto o senhor foi um homem inteligente. Todo o porvir da França está nas mãos da burguesia, todo o progresso depende apenas dela, enquanto o povo possa talvez desempenhar algum papel passivo e acessório de tempos em tempos. Quando eu, diante de meu amigo crente, disse que agora a Rússia precisa de um novo Pedro, o Grande, ele atacou minha ideia como se fosse uma heresia, dizendo que o próprio povo deve fazer tudo para si próprio. Que pensamento ingênuo, arcádico!" Como é que essa convicção surgiu em nosso crítico?, pergunta-se Plekhanov no decorrer de sua análise, talvez a mais importante do livro.

Quanto aos artistas falando da arte de escrever, são imperdíveis o ensaio de Tolstoi de 1859, sobre os contos de suas Cartilhas (Ed. Ateliê), recontados pelos escolares de Iásnaia Poliana; o de Gógol Algumas Palavras Sobre Puchkin, de 1835, e o de Dobroliúbov de 1859, sobre o fenômeno do "oblomovismo", já conhecido pelo público brasileiro que tenha lido Oblómov, a obra-prima de Gontcharov (Cosacnaify).

Finalmente, dando as primeiras respostas às indagações de Ánnenkov (mas não só dele), Sobre o significado das obras de artes para a sociedade (1856), temos o ensaio Sobre o método e as tarefas da história da literatura como ciência (1870), do grande linguista Aleksandr Vesselóvski, o antepassado dos formalistas russos, que anuncia as novas teorias. Mas aí já estamos no século 20.

AURORA BERNARDINI É

PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA NA USP

ANTOLOGIA DO

PENSAMENTO

CRÍTICO

RUSSO

Org.: Bruno Barreto

Gomide

Tradução:

Cecília Rosas, Denise Sales, Ekaterina Américo, Graziela Schneider, Mário Ramos, Renata Esteves, Sonia Branco e Yulia Mikaelyan.

Editora: 34

(608 págs.,

R$ 76)

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