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Procurando um imóvel

Procurar apartamento para alugar é um exercício avançado de desapego, capaz de levar ao desespero até o zen-budista mais iluminado.

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2015 | 02h00

De saída, a vítima pesquisa pela internet o que ela pensa ser o lugar ideal: tem que ter face norte, ficar perto de uma estação de metrô, ser silencioso, amplo, ventilado, bem conservado, com piscina, varanda e um preço bom. Então surge a realidade para cortar o barato. Literalmente: ou o sujeito se conforma em gastar o salário inteiro com o aluguel ou, pelo preço que ele imaginou inicialmente, só daria para pagar uma quitinete sem janelas na divisa com Piraporinha, de frente para uma fábrica de cimento que possivelmente exala partículas tóxicas, com mofo e cupim nas paredes e uma goteira no teto da cozinha, além de um vizinho italiano e baterista com hábitos notívagos. (Alô, Luigi!)

Confrontado com as circunstâncias, o infeliz faz as contas do valor máximo de que conseguirá dispor se puder pular o almoço e penhorar uma das tartarugas, sabendo, é claro, que a piscina e a varanda já vão precisar sair da equação.

Ele então encontra um anúncio de imóvel que parece dentro do orçamento: “Interfone funciona. Tem piso e parede. Interruptor top de linha. Decoração peculiar. Ligue já”. Otimista, acha bem artística a imagem desfocada de um ventilador de teto, e decide marcar uma visita. (Da foto da privada ele não gostou muito, mas assim é a vida.)

Conforme previsto, descobre que o lugar é pavoroso, embora o interfone realmente esteja funcionando. A essa visita seguem-se dúzias de outras, até que as exigências passam a limitar-se à existência de uma porta, uma janela e uma quantidade menor de musgo. Ao corretor de imóveis, que já não atende mais o telefone, ele dá a entender que está aceitando um apartamento mal-assombrado com locatário falecido ainda pairando pelo local.

Nas minhas buscas recentes, encontrei um lugar que parecia bom: a dez minutos do metrô ladeira acima, mas em local silencioso e com uma varanda digna. O apartamento fazia parte de um complexo de seis torres. Fui buscar no Google mais informações e encontrei o Blog Não Oficial do Boulevard Place des Vosges (o nome e indicações foram modificados), onde moradores relatavam incidentes daquilo que foi apelidado de “cortiço oficial da Zona Oeste”.

Só em 2015, foram encontradas seringas usadas, camisinhas e tubos de lubrificante íntimo no playground. Alguém se queixou de um homem que costuma nadar de cuecas aos domingos pela manhã, e de uma senhora da torre C que certa vez esvaziou seu penico nas crianças que brincavam na quadra. Havia uma série de denúncias de corrupção e calúnia, episódios de homens seminus circulando pelas dependências, incêndios, arrombamentos e tiroteios.

Fiquei na dúvida se devia descartar de pronto essa opção ou, pelo contrário, sendo uma cronista aplicada, implorar para morar no local.

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