Procura-se Miguel de Cervantes

Grupo de pesquisadores espanhóis começa buscas pela ossada do autor de 'Dom Quixote de la Mancha'

EFE, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2014 | 02h10

Miguel de Cervantes, o maior escritor espanhol, foi um soldado que morreu falido, em Madrid, com o corpo perfurado por balas. Foi enterrado numa igreja minúscula, e nada mais se soube do autor do século 16 até que a redescoberta de um romance com um excêntrico personagem chamado Don Quixote o resgatou do esquecimento.

Nesta época, ninguém mais se lembrava de onde era sua cova. Até que agora, quatro séculos depois, a Espanha tenta fazer justiça a seu grande escritor. Desde ontem, um time começou as buscas pelos restos mortais de Cervantes, num estudo que terá seus resultados divulgados este ano. O custo estimado da operação é de 100 mil. A pesquisa, de três etapas, começará no Convento de las Trinitarias Descalzas, no histórico bairro madrilenho de Las Letras.

Quando Cervantes se mudou para a capital espanhola em 1606, já havia publicado As Aventuras do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha. Apesar de a obra ter feito certo sucesso, não o tornou famoso, e o autor ficou mais conhecido na Espanha como o soldado de má sorte.

Como soldado, foi ferido numa batalha e passou anos como refém na Argélia. Foi capturado por piratas turcos que abordaram o navio no qual retornava para a Espanha depois da guerra contra o Império Otomano. A negociação de seu resgate arruinou a família de Cervantes, que estaria fadado então a viver de favores. Foi morar num bairro de ruas estreitas, casas pequenas e tavernas cheias de artistas e trambiqueiros, inundadas por vinhos e tapas. Outros autores da Era de Ouro da literatura espanhola, como Francisco de Quevedo, Lope de Vega e Luis de Gongora, o ignoravam.

Sua ossada está na capela que, anos depois, foi expandida para suas atuais, mas ainda modestas, proporções. "Sabemos que seu corpo foi enterrado aqui, e a história nos ensina que as igrejas nunca jogam fora os ossos. Podem realocá-los se necessário, mas ninguém ousaria joga-los entre ossadas comum", afirma Fernando Prado, o historiador responsável pelo projeto.

A primeira fase consiste na exploração do subsolo com um radar. "Vamos ver claramente se o terreno foi alterado, o que nos dará dicas", afirma o técnico Luis Avial. Seu relatório ficará pronto em um mês. Então, a investigação passará para as mãos do antropologista forense Francisco Etxeberria, que participou da autópsia do ex-presidente chileno Salvador Allende. A identificação forense será a última - e, possivelmente, a mais delicada - parte do processo. Qualquer osso encontrado pode ter sido misturado com outros. Prado afirma que, como não há descendentes vivos de Cervantes, a análise de DNA não deve ser de muita valia.

A investigação usará como referências, então, retratos do escritor e suas próprias histórias, nas quais ele relata que, antes de morrer, tinha apenas seis dentes. Mas as marcas mais óbvias serão as feridas das batalhas. Em 1571, ele foi ferido na batalha de Lepanto, e, no navio La Marquesa, levou três tiros de mosquete: dois no peito e um na mão. Apesar de alguns textos históricos referirem-se a ele como o "homem de um braço de Lepanto", o membro nunca foi amputado. Cervantes, contudo, perdeu o uso da mão.

Caso sejam reencontrados, os ossos serão levados de volta à igreja. "Ele será enterrado com uma placa que lembrará seu nome e quem foi", diz Prado.

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