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Lúcia Guimarães
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Procriar e criar

Quando pesquisamos romancistas americanos na Wikipédia, encontramos uma subcategoria "Romancistas Mulheres" ("Female Novelists"). O substantivo romancista pode ser neutro, mas a existência da categoria sugere falta de neutralidade na percepção da criatividade literária feminina.

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2013 | 02h11

O detalhe me ocorreu quando alguém chamou a atenção sobre a indignada reação ao argumento da escritora Lauren Sandler, autora do livro One and Only: The Freedom of Having an Only Child, and the Joy of Being One (Um e Único: A Liberdade de Ter um Único Filho e a Alegria de Ser Uma Filha Única).

Sandler conta que, quando pesquisava o livro, descobriu quantas heroínas suas na literatura só tiveram um filho. A lista inclui Mary McCarthy, Margaret Atwood, Joan Didion, Susan Sontag e Margaret Atwood. Num artigo na revista Atlantic Monthly, em junho passado, Sandler defendeu sua tese citando uma resposta da romancista Alice Walker: "Com uma criança você pode se movimentar. Com mais de uma, se torna uma 'sitting duck'," e aqui destaco a expressão idiomática que alude a um pato sentado, ou seja, uma presa fácil para o caçador.

A ideia da maternidade como condição de vítima não é nova, claro, mas encontra uma angustiada audiência neste país onde vemos, cada vez mais, que criar uma criança deixa de ser visto como um esforço que deve envolver toda a sociedade - na escassez de creches, no desmonte do outrora orgulhoso sistema de educação pública e na falta de flexibilidade de empresas que punem a maternidade e a paternidade. Então, a privatização do que era visto como de interesse de todos inspira uma indústria de ansiedade e acusações.

A reação veio rápida e de romancistas cuja criatividade não pode ser questionada. Zadie Smith, dois filhos, autora de Dentes Brancos e Sobre a Beleza, protestou na seção de comentários. Lembrou que Charles Dickens e Tolstoi tiveram dez filhos cada um e sua obra não foi julgada com base na prole numerosa. O problema que aflige escritoras ou operárias, lembrou Smith, é a falta de tempo resultante da falta de apoio social e comunitário.

Jane Smiley, ganhadora do Pulitzer com A Herdade, 23 livros, três filhos e dois enteados no currículo, endossou o protesto, dizendo que sua obra prolífica é afilhada da generosa cidade do Estado de Iowa onde viveu vários anos com as crianças.

No filme Antes da Meia Noite, última parte da trilogia que começou com Antes do Amanhecer e continuou com Antes do Por do Sol, a personagem vivida por Julie Delpy revela seu ressentimento, quase 20 anos depois de encontrar o marido, vivido por Ethan Hawk. De férias na Grécia com as duas filhas, ela acusa o marido escritor de nunca ter deixado de ser criativo. Diz que ela tem o trabalho estável, toma conta da casa e das crianças. "E eu, quando tenho tempo para ser criativa?"

A estátua de Clarice Lispector na Praça Maciel Pinheiro, em Recife, representa a romancista com a máquina de escrever no colo porque era esta a sua rotina - trabalhar sentada no sofá com os filhos por perto. A mais admirada "romancista mulher" brasileira teve dois filhos e a nossa mais admirada poeta, Cecília Meireles, teve três filhas. Ana Maria Machado? Dois filhos e uma filha.

O que não significa, é claro, dizer que a falta de filhos é uma desvantagem criativa. A romancista Hilda Hilst não teve filhos. Seu pai era esquizofrênico. Ela contou que, depois de conversar com um médico sobre os riscos da hereditariedade da doença mental, desistiu de ser mãe.

Não fiz uma pesquisa como a autora Lauren Sandler, que foi buscar causa e efeito por conveniência própria. A ideia de que a imaginação pode ser embotada pela presença de múltiplos filhos é absurda. Se perguntarmos às artistas que conhecemos: conseguem separar sua imaginação criativa da aventura da maternidade?, alguém duvida que a resposta será um sonoro "Não"?

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