Processo de singularidades

Reedição de obras fundamentais, como é o caso de Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, e publicação de textos de arquivo atestam vigor do pensamento de Celso Furtado, que faria 90 anos na segunda-feira

Francisco de Oliveira, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Em boa hora, a Contraponto reeditou Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, de Celso Furtado, aqui destacado entre os títulos do economista que a editora vem publicando desde 2008 (veja texto abaixo).Trata-se de uma sistematização, empreendida pelo autor de suas reflexões e contribuições para o conceito de subdesenvolvimento, suas diferenças em relação a outras abordagens, sobretudo as clássicas e as genericamente chamadas neoclássicas, dominantes no pensamento da ciência econômica por longo tempo.

Não é original e não é seu "clássico", que, como sabemos, é Formação Econômica do Brasil. Tem o valor das sistematizações, o que aclara talvez questões expressadas em outros textos no meio do turbilhão de idéias de Furtado. Duas ideias-força constituem o cerne do livro e das argumentações de Furtado, e uma é o espelho da outra. A primeira é que o desenvolvimento - capitalista, convém remarcar, posto que Furtado não o faz - não é um fenômeno universal, que tenha ocorrido ou ocorra urbi et orbi; a segunda, que é seu espelho, é que o subdesenvolvimento é uma singularidade histórica, não sendo uma "etapa" em direção ao desenvolvimento e é mais comum que seu irmão gêmeo. Não é, tampouco, atávico aos países e ou nações "atrasadas": é um fenômeno e um processo históricos, que somente podem ser entendidos na tensão entre teoria e história. Não há linearidade na história, e os processos econômicos nem por serem cumulativos deixam de registrar retrocessos ou inversões das relações entre as nações e mesmo internamente, entre as classes. Os casos clássicos na América Latina são Argentina e Brasil, a primeira o celeiro mundial de carnes e grãos até a grande Depressão de 1930 e o segundo o produtor da principal mercadoria do comércio internacional até os anos 1940, o café. Nem por isso Argentina e Brasil deixaram de perder o bonde da história, e passaram a posições secundárias na divisão internacional do trabalho que se seguiu à Grande Depressão.

Furtado passa em revista as abordagens sobre o desenvolvimento no amplo campo da ciência econômica relevante, vale dizer, desde os clássicos até Marx, e em seguida àquelas comumente englobadas sob o rótulo de neoclássicas, sistematizadas no amplo trabalho do grande economista inglês Alfred Marshall, Princípios de Economia. É dessa revisão que vai surgir a impropriedade ou inadequação do conjunto das teorias dominantes para explicar a situação dos países que daí por diante - o famoso relatório da Cepal é de 1949 - serão chamados de "subdesenvolvidos".A crítica é, em geral, pertinente, mas não demolidora, até porque nenhuma teoria econômica poderia ser construída desprezando-se ou fazendo-se tábula rasa dos clássicos e dos neoclássicos; muito do neoclassicismo permanece nas teorizações da Cepal, de Raúl Prebisch e do próprio Furtado. Keynes é poupado da crítica até porque a influência do lorde inglês sobre a teorização da Cepal , de Prebisch e de Furtado é enorme e insubstituível.

Há uma certa má-vontade para com Marx, de quem tanto a Cepal, Prebisch e Furtado herdaram uma concepção da economia como uma ciência social tensionada pelo duplo teoria e história. Vale dizer, o subdesenvolvimento como a teoria de uma singularidade do desenvolvimento capitalista em suas periferias - pelo menos na periferia latino-americana - não é a-histórico, e muito pelo contrário, o subdesenvolvimento só é inteligível nessa tensão.

A reedição do livro não é apenas a reapresentação de um clássico da literatura econômico-social brasileira e latino-americana. Seu valor heurístico segue na primeira fila dos ensaios que passaram à prova da história, no sentido de que inspiraram políticas concretas e foram armas no debate ideológico e no conflito de classes, e continua sendo um excelente ponto de partida para as reflexões sobre nossas especificidades, sem negar o caráter universal de suas perspectivas e proposições. Só não deve ser lido como uma bíblia, um livro santo, que seria avesso até ao caráter anticordial de Celso Furtado - no sentido buarquiano - porque os novos processos do capitalismo contemporâneo, sobretudo seu caráter ineludivelmente mundial ( François Chesnais), nos obrigam a repensar uma teoria do capitalismo contemporâneo que inclua, já não mais como singularidade, as nações cujas economias e sociedades foram um dia a pérola descoberta pela Cepal, Prebisch e Furtado.Essa pérola está firmemente engastada nos novos processos globais e é nossa obrigação teórica e política colocarmos agora quais novas formas nos são próprias, mas não exclusivas, se quisermos vencer o velho inimigo da desolação periférica que um dia Celso Furtado enfrentou. Há que juntar Furtado com Juan Rulfo, o grande novelista mexicano de Pedro Páramo, para que as vidas brasileiras e latino-americanas não sigam dando voltas desesperadas em busca de suas almas perdidas, isto é, a pobreza capitalista.

FRANCISCO DE OLIVEIRA É PROFESSOR EMÉRITO DA FFLCH-USP, AUTOR DE CRÍTICA À RAZÃO DUALISTA: O ORNITORRINCO (BOITEMPO)

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